Conto: A Queda

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Boa tarde, post tardio hoje, mas por um bom motivo, satisfazendo um pedido (parcialmente) da Regina que me pediu uma poesia de vampiro eu vou postar um conto.

A Queda

“O rei havia sido capturado, sofrera um golpe de Estado e decaíra. Fora deposto de seu trono. Olavo se auto proclamara Rei. Era o novo Senhor Supremo e Absoluto. O novo Rei estava liquidando com todo os aliados do Rei e seus casuais afilhados humanos. Queria que todos os anteriores à ele fossem humilhados.
Alícia era uma jovem afilhada, Arthur era seu tutor. Ela o vira ser emboscado, dilacerado e decapitado sem poder fazer nada. Fugira o tanto que pode, porém, também fora capturada.”

Olavo estendeu meu pulso em direção ao velho Rei.
– Morda – a, vamos! – ordenou, zombeteiro.
Eu consegui ver o velho Rei, Akil, lutar contra seus caninos, engolia em seco a saliva e balança a cabeça em negativa. Olhei para Olavo, com a sobrancelha arqueada, visivelmente ‘chateado’, se isso fosse possível.
– Velho, não contradiga. Morda – a e agora! – falou novamente, agora com tom mais colérico.
Meu coração pulsou forte no peito, por um instante poderia jurar que iria saltar para fora e sair correndo, eu deveria fazer isso. Porque me colocar no lugar de outra pessoa?! Eu deveria ter ficado quieta. Talvez Olavo tivesse escolhido o rapaz ao meu lado.

“Com o pulso estendido na minha frente eu conseguia sentir aquela pequena garota pulsar de medo, o pânico tomava conta de suas entranhas. Ela se arrependera finalmente, porém tarde demais. Para um de nós dois aquela decisão tardia era  o fim. Que fosse para mim então. Não a morderia.
Olavo grunhira uma dúzia de vezes. Irritado com a minha recusa, agora gritava ferozmente, mandava me morder Alícia. Um estalo rompera os gritos de Olavo, não fosse minha falta de sangue eu estaria ruborizado. Como num segundo de impaciência Alícia enfiara a mão no meu rosto, uma bofetada ardida, quase furiosa.
– Ande logo, velho decrépito. – Alícia vociferara as palavras. – Faça o que lhe foi ordenado.
Olavo parecera bem mais surpreso do que eu e nem ninguém presente compreendera também. Ela me mandara que a mordesse. Agredira-me para eu a mordesse. Minha ira surgiu num rompante. Maldita garota humana. Abri a boca e mostrei os caninos em sua direção.
– Exatamente velho maldito. Faça o que seu novo Rei lhe ordena. – seu ódio despertara o meu.
Olavo ria se irônico. Ótimo rumo tomava seus barcos. Uma humana estava humilhando ainda mais o antigo Rei. Humana infernal.
Aquela cena seguira se por mais alguns minutos, eu me mantinha agarrado aos meus brios , não morderia e transformaria uma humana.
– Não vou contra minhas regras. Desista Olavo.
Alícia estava tomada por um excitamento que eu duvidava possuir à ela. Novamente me esbofeteara, pronunciara mais meia dúzia de palavras e jogou se ao chão, ajoelhada, rente ao meu peito. Estávamos os dois ajoelhados. Eu via seu suor escorrer pelo pescoço dando lhe um ar de guerra, seu rosto estava deveras vermelho. Engoli novamente em seco.
‘Maldita, saia de perto de mim’, falava direto em seus neurônios. Ela riu. E ainda ajoelhada puxou para trás seus cabelos, deixando a mostra o pescoço e o decote da blusa preta regata.
Olavo e todos os outros silenciaram. Sabiam que por maior que fosse a boa vontade, eu jamais repudiaria uma jovem tão bonita, tão viva, tão cheia de sangue. Eu afastava minha cabeça o quanto podia. Porém cada movimento meu para trás era o dela para frente.
– Não adianta. – minha voz saiu muito fraca e falhada.
Ela recostou seu tórax no meu, senti a implorar novamente, porém dessa vez, pedindo para que eu fizesse.
– Vamos velho. Estou aqui.
Cerrei os olhos, sua voz inundou meus pensamentos. ‘Se não for você Rei, quem será? Dê- me sua experiência, o conhecimento necessário para mata – lo.’ Seu ódio me invadiu, sua voz nervosa me ensurdeceu.
– Desista menina, nem assim.
Ela encostou se ainda mais no meu corpo, tornou sua cabeça em direção aos meus olhos e me fitou. Aqueles olhos me congelaram, não era uma pobre garota boba, não. Aqueles olhos.
Um perfume de violeta invadiu minhas lembranças. Aqueles olhos, fortes e seguros de si. Aqueles olhos me comiam, com certeza me petrificaram por inteiro. Não consegui mais pender a cabeça para trás.
Ela sorriu docemente, seus olhos. Aqueles olhos. Fui seduzido, abduzido para dentro de sua alma. Não existia nenhuma alma ali, além da minha e d’ela. Em seu olhar firme eu conseguia sentir uma sensação agradavelmente antiga, familiar e única.
Aqueles olhos imploravam para serem devorados. Imploravam para serem transformados, de volta. Eu conhecia aquele olhar, aquele jeito único e imperioso de olhar. A sala girou. Seus olhos me prenderam e seu coração pulsava dentro de minha alma.
Agora entendera o que Arthur quisera dizer com peculiar e misteriosa, ela não era apenas uma humana. Sua alma não era somente uma humana. Aquele perfume de violeta, aquele olhar devorador, guloso e profano.
– Lena. – sussurrei em nossas mentes.
De sorriso aberto, ela delicadamente falou dentro de mim. ‘Me morda, me traga de volta.’. E agora ciente de não se tratar de uma reles mortal descartável eu consenti.
Curvei sob seu corpo, seu pescoço suado, suas veias pulsantes. Percebi a fechar os olhos e conseguia ouvir o som de sua agradável risada em minha mente. ‘Akil, eu permito violar meu corpo. Meu novo corpo. Eu permito me trazer de volta.’
E como ocorrera há mais de mil e quinhentos anos, eu pendi minha cabeça em seu busto, empurrei delicadamente seu corpo para trás para me acomodar melhor, lambi da ponta de seu decote até o pescoço. Aspirei seu perfume fortemente.
Como se aquele olhar dela tivesse sugerido efeito maior, todos estavam paralisados, até os que seguravam firmemente as correntes que me prendiam, paralisaram. Baixei meus braços com a soltura das pontas das correntes e abracei seu corpo.
Por segundo ali, apenas nos aspirando, lembrei da vez que fizera isso pela primeira vez, num campo desértico perto de Tis, no antiguíssimo Egito. Ela estava linda, desnuda em cântico. Agora em meus braços ouvia a entoar os velhos versos. Seu corpo mais preenchido em meu peito. Abri a boca suavemente e finquei meus dentes em sua jugular. Ela gemeu, um bocado de dor escapou lhe pela voz. Enchi minha boca com seu sangue, vermelho vivo. Ela fincou as unhas em minhas costas, meneou a cabeça para trás, suguei lhe mais punhado de sangue e segurei lhe a nuca mole. Mordi meus próprios lábios misturando nossos sangues e a beijei.
Ela ferozmente prendeu se em meus lábios e mordeu os, sugando nossa mistura, revigorada num piscar de olhos ela segurou meus cabelos. E num beijo sôfrego nos consumimos.
Tudo enegreceu, a sala apagou se como mágica. E ali de joelhos abraçado à Alícia eu me traía. Devorava seus lábios como ela os meus. Aquilo que prometi jamais fazer novamente, eu mordia e transformava uma humana. Quebrei minha mais importante regra. Porém agora deitados, com seu corpo abaixo do meu eu sentia irromper la, profanar aquele corpo humano. Sua pele ardida e quente esfriava com o contato da minha. Beijei lhe a mordida novamente. Ela procurava meus lábios.
Senti permanecer por dias devorando lhe a alma, o sangue e o corpo. Senti que nada mais existia, assim como daquela primeira vez, onde mesmo no calor do deserto nos mantivemos por semanas apenas presos um no outro. Sem sol, sem outras pessoas, sem outros ruídos. Apenas nossas almas corrompidas, nossos corpos unidos e nossos sangues misturados.
E depois de mais de 400 anos transformei novamente uma humana em vampira. Após essa imensidão de dias e semanas apenas nos devorando, nos amando, sentimos nos fracos. Eu e ela não possuiamos mais sangue para nos sustentar ali naquele ato.
Senti meu corpo todo doer. Uma dor aguda e dilacerante. Cerrei forte os olhos e consegui ver tudo novamente. Olavo e todos os seus servos, os outros dois prisioneiros não estavam mais ali.
Olavo sentado em minha cadeira e os outros aguardando que eu retomasse a consciência, quando pisquei novamente os olhos, os quatro brutamontes estavam novamente prendendo minhas correntes à parede.
O corpo de Alícia jazia no meio da sala, nu, pálido, sem vida. Aquela garota serviu à mim e eu à ela por semanas. Olavo fez um sinal e duas mulheres entraram, cada uma trazia um jarro cheio de sangue, uma veio em minha direção e a outra em direção a Alícia.”

Bom, esse conto é gigante, a verdade é que a história toda poderia dar um livro, e essa era minha intenção, mas são planos que vão sendo colocados de lado, espero que gostem e principalmente leiam até o fim … hehehe

Por hoje é só!


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  1. hehe.. Eu já li esse “conto”.
    Sinceramente, não lembro se fiz comentários referente a este,
    todavia se não o fiz, fica aqui minha critica:

    Mais uma vez ADOREI!!!

    Você deve já estar cansada de ouvir de mim que escreve MUITO. Devo confessar que me falta vocábulo para elogiar a ti e as tuas obras , contudo há motivos plausíveis para tanto, o fato é que não existem palavras suficientes para descrever de seu dom colossal (escrever^^)

    hehehe… É isso Cherry.
    Beijos e Bom final de semana.

  2. Pingback: Os números de 2010 « Adrianna Alberti

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