Pirocinese

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Bom dia, hoje vim mostrar um conto inédito, escrevi ontem durante todo o dia, entre as sete e as duas da manhã de hoje.  Devo dizer que de certa forma fui inspirada pela leitura do livro “O Livro Perdido das Bruxas de Salém”, leitura que, inclusive, recomendo.

O nome é muito sugestivo e depois vocês poderão conferir que óbvio. Então vamos ao conto:

Pirocinese

“Hoje o dia começou errado”. Pensou ela enquanto enrolava uma manta nos ombros, abria a porta vagarosamente para que sua gata insistente pudesse sair. Observou o quintal, um sopro de brisa frio a estremeceu, uma densa neblina cobria o topo das casas. Ainda viu a gata preta saltitar a plataforma no canto do quintal e fechou a porta.

Deitou e tentou pegar no sono novamente, revirou se de um lado para o outro, encolheu se entre as cobertas, não achou posição confortável, revirou mais uma vez e sentou escorada do encosto da cama, assou o nariz e desistiu de dormir. Limpou o cestinho de lixo ao lado da cama, cheio de papéis assoados. Na cozinha colocou uma chaleira da avó com água no fogão e foi tomar um banho quente.

Fora dormir tarde na noite anterior, insone ficou lendo um livro qualquer. Dormira mal, com dificuldades para respirar devido à gripe, antes e agora seu corpo doía, sua cabeça pesava. Sonhara coisas esquisitas e acordara antes das sete, pois, a bendita gata arranhava insistentemente a porta do seu quarto. Vestiu um pijama de plush, grosso e velho, daqueles que não doamos nem damos por nada no mundo, enfiou meias grossas de lã nos pés e calçou uma pantufa.

Deixou a caixa de lenços no balcão da cozinha, ouviu um arranhar na porta da cozinha e abriu a vendo um corpo esguio e branco saltitando para o pote de ração, outro gato entrando, suspirou contrariada. Abriu o armário antigo de estilo provençal, como todos os móveis de madeira da cozinha. Observou atenta os vários potes de vidro etiquetados com fitas já amarelada pelo tempo. Vasculhou os diversos potes, o primeiro a retirar foi um escrito em letras grandes Alium sativum retirou alguns punhados de conteúdo seco e retorcido e jogou na água, tampou o e guardou. Observou mais aquela vasta coleção e tirou outro potinho, dessa vez forçando os olhos para ler o latim apagado, Bohemeria caudata tirou alguns galhinhos e juntou ao preparado, retirou mais dois ou três potinhos e fez mesma coisa.

Sentou na poltrona e esticou os pés na cama, murmurava algumas palavras de reestabelecimento da saúde na borda da xícara e ajeitou cuidadosamente mantas nos ombros e nas pernas. Assoprava o chá enquanto pensava novamente que aquele era um dia estranho.

Acordou meio atordoada com o barulho da xícara se espatifando no chão, esbravejou brava consigo por ter caído no sono com algo nas mãos. Catou caco por caco, repassando na cabeça a desculpa que daria para a avó, que lhe dera com tanto carinho o item. Só depois de terminar de limpar tudo é que percebeu que já anoitecera.

Ouviu novamente o arranhar conhecido de portas e abriu, não viu entrar nenhum de seus cinco gatos, apenas observou o vazio, a varanda reluzia um amarelado do piso com a opaca luz do teto, deu de ombros e trancou a porta, xingando mentalmente os gatos por lhe fazerem de boba.

Passou a mão pelos cabelos e sentiu a raiz umedecida, constatou uma febre desconhecida até então, sentou se no sofá da sala na penumbra, sua cabeça doía, parecia lhe queimar as faces e arder os olhos que incomodados lagrimejavam sem parar.

Um súbito e inquietante pensamento atiçou a mente, tateou o móvel ao lado do sofá até encontrar um pequeno interruptor ligado à um fio longe e este por sua vez na tomada, apertou e viu uma luz fraca iluminar da outra ponta do fio, um abajur delicado e branco. Faltou lhe por instantes o ar, “a pressão está baixa, dia ruim” repetia sem parar. Pensou em seu namorado e no quanto precisava de um mimo àquela hora, adoentada e sentindo se tão mal.

A luz iniciou um pisca-pisca irritante, franziu as sombrancelhas sem entender muito bem. Ouviu um gato miar forte do lado de fora e preocupou se, abriu novamente a porta, dois de seus gatos eriçavam o pelo para o nada, fazendo aquele som característico quando querem ser deixados em paz “quem está aí?” perguntou numa voz baixa.

Viu de longe uma sombra esbranquiçada esgueirar se pelo portão fechado, instintivamente puxou a chave da fechadura interna e correu ao portão, abriu o apressada e forçou os olhos à observar sombras e movimentos, viu apenas as árvores balançando ao sabor do vento e um cachorro atravessar a rua duas quadras a baixo de sua casa. Bufou enraivecida, “quem está aí?” perguntou novamente irritada, no terreno vazio à esquerda do seu vizinho do outro lado da rua ouviu caixotes e sacos plásticos cairem no chão, prestou atenção e viu novamente a sombra esbranquiçada, irritou se e foi naquela direção. Suas pernas tremiam e um suor frio escorreu do couro cabeludo até o meio das costas, tossiu forte e sentiu o conteúdo pastoso do pulmão subir à garganta e descer por ela novamente.

Na frente do terreno com a pantufa a pisar na grama molhada com a umidade da noite, repetiu novamente a pergunta, o que observou foi um vulto acinzentado percorrer de ponta à ponta o terreno vazio, cercado apenas de dois muros, o do fundo completo e o da frente, inacabado deixando um espaço grande para um possível portão, os lados, cercados de mato e árvores não dava visão de muro ou divisa com os vizinhos.

Estalou a ponta dos dedos que formigaram rapidamente e começaram a esquentar, bufava de raiva pela situação incomoda, pigarreou limpando a garganta e disse num sonoro latim: “Faça a luz”, uma bolinha inicialmente alaranjada surgiu da palma de sua mão ganhando uma cor de vermelho vivo e um calor gostoso, ao mesmo tempo ganhava tamanho. Soprou a bolinha para a direção final do vulto e este por sua vez abriu a bocarra engolindo a bola fumegante para dentro de si.

O corpo etéreo e cinza ganhou cores róseas de dentro para fora, aquela bola de fogo estava dentro dele iluminando o assustadoramente. Ela abriu a boca desconcertada, ergueu uma sombrancelha, enquanto piscava sem parar, sem compreender exatamente o que era aquilo. Uma voz ecoava pela noite dizendo que estava ali para suga la, ela tossiu novamente amargando a boca.

Os braços que até então não conseguiu ver da criatura abriram se e do que podia chamar de mão surgiram pequenas brisas frias, condensadas de névoa que aproximaram se rapidamente dela, sentiu o corpo amolecer e cair de joelhos no chão, um cheiro pestífero tomou conta de suas roupas e um nó se formou em sua garganta. “Vim apenas suga la” ecoava a voz esquisita.

Ela estalou novamente os dedos dessa vez com mais força e disse baixa em latim “Queime”, ligeiras e inicialmente pequenas bolas de fogo surgiram das pontas amortecidas de seus dedos e logo se transformaram em enormes massas de fogo que se atiraram contra a criatura que flutuava a meio metro do chão, algumas o braço da criatura jogou para trás, outras foram engolidas e duas lhe acertaram o corpo, formando buracos na forma homuncula da criatura. Quis estar nos braços do namorado dormindo tranquilamente, mentalizou o sorriso bonito e teve medo.

A mulher ainda estupefada sentiu pouco de suas forças serem retomadas e correu para trás da árvore no canto do terreno. Agitava as mãos no ar e sussurrava palavras em latim, os focos de fogo que haviam surgido devido às bolas de fogo aumentaram, dando um ar de queimada horrível ao ar, crepitando e estalando as folhas e lixos ao redor, apontou delicada uma delas e girou o dedo para a sombra agora colorida em tons de crepúsculo. Viu as chamas resvalarem na cabeça do ser que ecoava palavras desconexas no ar.

Sentiu de súbito mãos advindas da sombra da árvore agarram lhe os pés e as mãos, pigarreava sem ar e ria irônica, triunfante. Fechou os olhos e recitou um poema antigo, não mais em latim, mas uma língua mais morta que latim, todo seu corpo ganhou um tom acobreado e esquentou agoniantemente, as mãos que lhe seguravam pegaram fogo, grudando à pele quente da bruxa que estremecia da cabeça aos pés numa convulsão, sentiu o que lhe prendia virar pó, logo soprado pela brisa.

Balançou a cabeça irada e saindo de seu esconderijo sentiu a criatura baforar um hálito frio e pestilento em sua frente, o corpo amoleceu novamente, sua vista turvou, ergueu os braços vagarosamente, pesados, por força desconhecida. Sentia que aquilo realmente lhe sugava a energia, espalmou a mão no que julgou ser o rosto límpido e cinza, e proferiu novamente seu poema antigo. Contorceram os dois ali, corpos erguidos em meio ao incêndio que já tomava conta de todo o terreno. A criatura derretia aos seus pés.

Seu corpo foi chacoalhado pelos ombros, ouviu seu nome baixo e logo depois estridente, piscou diversas vezes, ora aparecia o espectro cinza derretido ora o rosto familiar do namorado. Sentiu mais um solavanco provocado por mãos quentes e despertou.

Olhou ao redor tudo estava terrivelmente calmo, suave até. Perguntou o que ele fazia ali e ouviu como resposta uma voz carinhosa: “Você me ligou não tem quinze minutos, disse que precisava me ver, estranhei o tom da sua voz e vim correndo. Sabia que tem um incêndio na frente da sua casa?”. Ela sabia, mas queria dizer que era apenas sonho o que se seguiu. Vestiu grandes casacos e um tênis velho.

Curiosos em frente ao portão viam chamas lamber todo o terreno vazio, ela olhava todo aquele vermelho vivo, concentrada, mexia os dedos em sinal de alerta e para baixo, as chamas aos poucos iam diminuindo, sem ferir nenhuma das edificações ao redor. Os bombeiros chegaram pouco depois, apagando de vez o incêndio. Viram todas as chamas virarem cinzas, abraçados, apreciando o espetáculo do fogo se extinguir. Ouviu um dos bombeiros brincar que nada sobrara, apenas uma gosma esbranquiçada e suja pelas cinzas do fogo bem do lado de uma árvore.

Sentiu o beijo delicado do namorado no rosto e o convite para ir para cama dele. Chamou todos os gatos e os pos para dentro. Bateu a mão no batente da porta, desenhando um pequeno símbolo de proteção com a ponta do dedo incandescente. Fechou a porta e pensou novamente “dia ruim, dia esquisito”.

Outro longo conto, quase dez mil caracteres (sou perseguida por esses limites de caracteres, embora esse tenha sido escrito sem pensar em limites). Agradecimento à Lime que me deu uma mãozinha para pensar no que colocar no meio do conto.

Por hoje é só!

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  1. Nossa esse conto aqui fico muito bom hein^^

    Gostei demais, pena que eu já tinha lido algumas partes, isso tira um pouco da empolgação…hauahuahauaha.No entanto quem diria que ficaria este conto estupendocom ficou.
    Do jeito que você estava ontem dizendo que não tinha idéias e tals.

    Já disse muitas vezes e não canso de dizer, você tem o dom para escrever, mais não escrever qualquer coisa, mais sim, verdadeiras obras de arte dignas de serem por muitos contempladas e reconhecidas como tal.

    Parabéns mais uma vez, e deixo aqui meu desejo de que tenhas sempre iluminada sua mente pela luz de imaginação, porque competência você sempre possuiu.

    Beijos Amanda.

    PS: Muita bondade sua dizer que ajudei, quase que mais atrapalhai do que qualquer coisa,mesmo assim, obrigada por lembrar que pelo menos tentei…hauahauaha

  2. Ahhhhhh!!!!!! Ficou muito bom, adorei *——-*

    A Limie ajudou???? hááááá deve ter atrapalhado mais do que qualquer coisa hahahahahahahaha….. brincadeira.

    Queria eu ser assim também hahahahahahahaa!!!!

    Beijão Cherry
    s2

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