Retrato

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Boa noite, em um domingo entediante, que tal ler um conto entristecido do velho cotidiano feminino?

Retrato

Sentia a gotícula rebater em sua pele, não sabia mais dizer pelo que chorava, mas vertia em lágrimas, sua angústia inexplicavel em palavras. Sentia cada gota salgada cair em seus seios nus, em suas coxas, em seus pés, ora caíam abundantes, ora setia seu rosto ressecar.
Sabia ser egoísmo derramar derrotadas lágrimas por um motivo tão supérfulo, lembrava se dos problemas urgentes e importantes, contas à pagar, livros à ler, estudos à concluir. Mas suas lágrimas não eram reflexo de seus serviços.
Em sua mente rabiscava poesias em rima, tentando acalentar seus sentimentos, mas até as palavras perdiam se em um oceano de súplicas e confusões.
Deixou cair em seu rosto, água mais abundante e mornos, os pingos de água do chuveiro não escondiam os olhos vermelhos. Encolhia se entre o chão e a parede, desviando pensamentos em vão. Apertava a carne mole que sobrava da barriga, culpando o descuido pouco feminino de seus hábitos. Revia cenas, passos, erros, segredos e novamente destinguia a gota amarga da lágrima a cair em seu seio, chorava em silêncio, para não acordar o parente do quarto ao lado.
Escolhera a cor vermelha para as unhas, que tão bem constratava com a pele branca, concentrava se ao máximo e embelezava as mãos pequenas e macias, disfarçando as cutículas roídas. Sentia se incomodada, puxava os cabelos para um lado, desfazia um nó, puxava os cabelos para o outro lado, amargurando as pontas ressecadas, a cor velha e a rebeldia de seus cachos. Alisava os com dificuldade, demasiadamente contra sua vontade, finalmente sentiu diminuir o volume e mesmo sem gostar, aceitou.
O espelho de dentro do guarda roupas era seu confessor, olhos caídos, entristecidos e vermelhos. Trazia para baixo com a ponta do dedo a pele abaixo dos olhos e passava a ponta do lápis preto para contornar os olhos, duas, três vezes. Preparava se para representar, era sua armadura, sua máscara de guerra, sempre olhava aquele espelho e enquanto sombreava as palpebras, sentia passar tinta verde e preta nas bochechas, iguais aos soldades em guerra.
Cumpria desgostosa o ritual feminino de embelezamento, tantos apetrechos, pincéis, tintas, pós: Ressaltar o olhar, o contorno dos lábios, as orelhas adornadas, nos pulsos pingentes barulhentos. E ao terminar e olhar se no espelho, nunca sorria de verdade.
Compunha sua máscara perfeito, cobria suas imperfeições e inconscientemente pousava sempre as mãos na barriga um tantinho saliente com frustração.
O sutiã roubava lhe o ar, a blusa não permitia sentar despreocupada, a calça lhe trazia marcas ao fim do dia e a sapatilha lhe tirava uma lasca de pele do calcanhar, suspirou resignada.
Observou o canto da estante de onde uma sorridente bonequinha de porcelana sorria, de cabelos de lã e roupinha vermelha, endireitou a postura, ouviu o estalo da coluna, encostou a ponta do dedo no nariz brilhante de sua velha amiga, ajeitou lhe o cabelo e sorriu de volta. Saía para sua guerra!

Preocupou se tanto em ocupar todos os espaços, que não reparou em todos os seus espaços ficando vagos, do alto do seu orgulho ferido, não notou precisar de carinho. Tentava não errar novamente, não ferir e nem sair ferida, que não conseguiu distinguir novos errados de velhas feridas.
Sentia tanto desejo que não percebeu esfriar suas paixões e perder se a esmo, tentava calcular cada passo para que saisse tudo perfeito, nem mesmo conseguiu identificar onde foi que errou e repetia sem parar: “Se é que há mesmo um erro.”.
Preocupou se tanto em não perder seu contento que mal pode enxergar que era ele quem a estava perdendo. Já não sabia o motivo de suas lágrimas, e mesmo em meio a tantos problemas, temia por seu doce coração. Ocupava se de estudos, serviços, palavras, poesias e planos, que nem percebeu perder se dos braços de seu encanto. Viu uma gota salgada manchar a tinta da caneta no papel quase em branco, fechou o livro estafada. Encolheu se na cama vazia e manchou os lençois que a escondiam, com amargas lágrimas.

Retrato é uma história triste, de uma mulher um pouco perdida, um pouco depressiva, mas que diz respeito à fases muito conhecida por várias mulheres, tentei escrever algo que diz sobre seu comportamento e sobre seus pensamentos.

O que acharam?

Por hoje é só!

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  1. ADOREI!!!

    Faz mto tempo que não posto aqui [não que necessariamente, não visite esse endereço diariamente]. Prometi que faria “coments” sempre em todas as publicações, no entanto, tive motivos fortissímos para não fazê-lo.

    Todavia, o que vem ao caso agora não são minhas desculpas, que soam mentiras…hauahauaha, mais sim, essa obra digna de elogios infinitos. Parabéns Cherry, você como já dito anteriormente por mim,possui o dom de tocar as pessoas com as palavras, e por conseqüênciaa revelar verdades de uma forma tão natural por intermédio desse dom que não tem como alguém não reconhecer você como uma artista de qualidade. Não sei nem o que dizer, estou sem palavras… Simplesmente ADOREIII.

    Beijos e Infinitas felicitações pela obra MARAVILHOSA que criou.

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