O Amigo do Metrô

Padrão

Boa tarde, estou em uma arrumação dos contos que já escrevi, catalogando e arrumando em ordem (ou quase em ordem) cronológica para enviar para a Aline da Ed. Baraúna.

Encontrei esse conto contidiano que a príncipio escrevi para a seleção de uma antologia, mas desisti e guardei na gaveta. Venho mostrar ele hoje à vocês.

O Amigo do Metrô

Eu o conheci numa quinta feira comum, sai do trabalho e fui em alerta para o metrô, quando cheguei na estação, haviam as mesmas pessoas que sempre estavam, quando entrei no vagão já não tinha nenhum lugar vago, e já passava das nove horas da noite, Lucas puxou, delicado a lateral da minha bata e disponibilizou seu lugar, sorrindo, agradeci.
Ficamos assim por quase quinze dias, eu entrava no vagão, ele cedia seu lugar e sorriamos, sempre de segunda à sábado, por volta das nove horas da noite. Até que um dia, estávamos os dois sem lugar, ele me viu entrar, chegou mais perto e ofereceu o cano de ferro preso do chão ao teto, brinquei que até em pé ele era gentil e então, a partir desse dia sempre trocávamos comentários sobre o tempo, sobre a política, a novela e sobre receitas, lembro que a primeira vez que o assunto caiu em comida, ficamos a viagem inteira conversando sobre receitas.
Lucas, seu nome só fui descobrir quase um mês depois, era m amor, de riso fácil e olhar curioso, suas mãos eram bem ásperas, mas suas bochechas sempre coradas e redondinhas, seu cabelo sempre bem aparado e desde que consigo lembrar sua pele sempre teve a aparência abatida.
Após alguns meses, Lucas começou a me preocupar, seu riso solto já não existia, foi mais ou menos quando começamos a falar sobre nossas vidas pessoais, por insistência minha, claro, queria cada vez mais que ele voltasse a sorrir o tempo todo.
Ele me contou que Beatriz, “e nesse instante pude notar que ela abaixava o olhar na platéia”, havia terminado o noivado de cinco anos e que aquilo o deixou arrasado e acabou com sua tranqüilidade. Contou também do falecimento de seu avô, vítima de câncer, e me recordo muito bem, foram meses de lágrimas e sofrimento que ele dividiu comigo.
Mas seria injustiça dizer que somente o meu colo foi o elo de nossa nova e diferente amizade, quando um ano e meio depois, daquele primeiro dia que o conheci no metrô, perdi meu irmão, foram mais alguns meses de lágrimas, várias ausências minhas em nossos encontros noturnos no metrô, aliás, não conhecia sua casa, nem os lugares que freqüentava, nem seus amigos ou parentes, eu só conhecia o que ele me contava e o vagão que sempre pegávamos.
Um dia propus um lanche fora do vagão, e no primeiro sábado que nossa amizade viu a luz do sol, passamos o dia todo sentados na lanchonete falando e falando. Depois desse dia Lucas passou a me acompanhar até em casa, até a porta do prédio, companheiro e cuidadoso, a única vez que ocorreu um deslize, foi um leve roçar de nossas coxas no vagão d metrô, quando depois de uma paralisação, o nosso tranqüilo horário passou por uma mudança radical. “E todos riram nesse momento”.
Tudo modificou quando no meu último dia no trabalho, lhe avisei que aquele era também meu último dia de nossa aventura rotineira, avisei que desempregada o máximo que poderia fazer era lhe dar o número de meu telefone e esperar que me ligasse, ele sorriu, anotou o número do meu celular e no dia seguinte me ligou.
Surpreendida, ele me ofereceu um emprego, uma sociedade, foi nesse dia inclusive que descobri que ele não precisava pegar o metrô, pegava porque fazia tempo que ele não encontrava uma amizade pura, como a nossa, chorei muito estragando a camisa do restaurante, recém feita para mim.
Há um ano uma terceira pessoa surgiu no meio de nossa amizade, quando contratamos Luíza para a vaga de recepcionista, recordo me que Lucas se encantou, uma vez ele disse algo que me marcou, num acesso de romantismo desconhecido ele comentou que somente aquelas mechas ruivas no rosto branco e a iluminação dos ohos dela é que disparavam seu coração.
E sem mais blá blá blá, quero desejar ao casal de pombinhos amor puro e eterno, maravilhoso e simples, igual ao sorriso do Lucas e nossa amizade, e não se preocupe cuidarei de nosso restaurante enquanto vocês estarão em lua de mel.
“Todos ergueram suas taças e tintilaram umas nas outras, Lucas piscou para mim e eu lhe mandei um beijo. Naquela noite passei em frente à estação que sempre pegava o metrô e lhe pisquei, pude notar que ela, em sua imponência cinza me mandou um beijo. Deitei no peito de meu marido que carinhoso beijou minha testa. E agradeci pela vida.”

Um conto simples, que me deixa uma sensação delicada de alegria e nostalgia (mesmo que eu nunca tenha vivido essa história).

Beijos!

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  1. ADOREI!!!

    Você sempre me surpreendendo com sua sensibilidade e me deixando sem palavra para descrever seu MARAVILHO dom com as palavras.
    Parabéns pelo trabalho aqui exposto. PARABÉNS mesmo^^

    Beijos
    Limiee^3^

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