O Uivo do Lobo

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Boa tarde, trago hoje um conto inédito, escrito de última hora e como uma espécie de desafio, afinal, é o primeiro conto em que insiro realmente e tentei fazer como personagem principal, um lobisomem.

O Uivo do Lobo

Acordou novamente sonolento, sem forças, embora em suas veias correrem vida, fogo e vontade. Estava deitado no chão duro e cinza de uma rua escondida entre grandes avenidas, era aquecido por um emaranhado de pelos marrons e pretos, soltos e compridos, que serviam de acolchoamento para o chão.
Olhou seu corpo moreno, totalmente nu, suava com o contato dos pelos, bocejou preguiçoso, sentiu suas partes tocarem o chão da ruela, arrependeu se de ter ido tão longe àquela noite. Procurou ali entre os caixotes de papelão desfeitos e os pobres mortais que dormiam encolhidos pelo frio, algumas peças de roupas, não precisavam caber lhe perfeitamente, logo estaria em sua casa e poderia tomar um merecido banho.
Largou se na poltrona de tecido barato, ainda enrolado na toalha de algodão, sentia calor por todos os viventes da terra, suava e mal tinha saído do chuveiro. Coçou a cabeça molhada, remexendo o cabelo sempre desgrenhado, suspirou preocupado. Pegou seu celular e discou um número que sabia de cor, ouviu apenas os toques de chamada, sem, no entanto, ser atendido, por onde ela andaria?
Tocou o braço onde uma longa e esbranquiçada marca desenhava se do pulso ao ombro, forçou a mente a lembrar se onde havia ganho aquele presente, mas nada. Não lembrava se de nada da noite anterior, fora o que ainda havia feito ou visto enquanto ainda não havia tido o brilho da lua a espelhar seus olhos verdes.
Enfiou se nas suas calças jeans desbotadas, a camiseta preta com dizeres impronunciáveis em sua língua, jogou o cabelo para trás, calçou suas botas pretas e olhou para o relógio, ainda eram onze horas da manhã, teria tempo. Poderia encontra la antes da lua cheia desenhar se no céu.
Farejou os ares poluídos da cidade, andava tranquilamente por entre os rostos tão desconhecidos, todos ali vestidos de peles e tecidos grossos, ele apenas com a sua camiseta de rock antigo. Boris passava e várias mulheres sentiam seu calor, algumas se abanavam, outras viravam o pescoço para seguir ainda um pouco de seu cheiro. Mas sua fisionomia fechada e truncada não permitia a nenhuma delas ir a seu encontro.
Estagnou próximo a um casarão, velho e podre por si só, antigo, jamais saberia contar o tempo daquela residência por sua arquitetura, mas sabia que aquilo era velho. Sentiu o cheiro da morte que exalava daquela construção, sentiu um ímpeto de vomitar o nojo que sentia, mas engoliu em seco o gosto amargo daquele lugar. Sentou se em um bar, do outro lado da rua, observando, ouvindo e cheirando ao ar, por horas. Quando finalmente pressentiu que aquele era um lugar seguro, entrou por uma rua paralela, entrando por um muro escondido por altas árvores, no quintal do casarão.
Fungou o ar, farejou o perigo adormecido. Mas estava seguro, ainda faltavam muitas horas até o anoitecer. Entrou sorrateiro e silencioso por uma janela aberta, a casa por dentro era tão, ou mais, mal conservada. O cheiro de morte e decomposição misturava se ao cheiro de madeira apodrecida e úmida, novamente o nojo.
Seus pelos arrepiaram se, principalmente na nuca e nas costas, farejou novamente o ar, perigo, ainda adormecido. Logo alguns ruídos de passos chamaram sua atenção, subiu uma longa escada, passou por um corredor e ao final dele, uma porta entre aberta exalava um perfume conhecido, doce, suave. Sabia que não se enganaria.
Abriu a porta delicadamente, sem tentar tirar dela nem um rangido sequer, e a viu, sua Kemiah, agachada em um canto do quarto, totalmente escuro, a luz que banhava o lugar era apenas a luz que a porta aberta permitia passar, farejou aquele quarto, sentiu o medo absurdo que misturou se com o doce perfume. Tentou balbuciar alguma palavra, mas sabia que não deveria acordar nenhum perigo que dormia ali, seja qual fosse.
Aproximou se do corpo fragilizado da mulher, estendeu sua mão para o rosto delicado dela, ouviu por um instante ela farejar a pele e logo em seguida sentiu o corpo dela jogar se e aconchegar se em si. Tateou seu corpo e sentiu pequenas correntes de ferro prender lhe um dos tornozelos e o pescoço e sem muito esforço estilhaçou os elos, deixando apenas as peças de aço presas no corpo.
Carregou a por todo o casarão, ela soluçava em seu peito quente, sentia a mais fria que o comum, mas não se atentou, quis apenas retira la daquele cativeiro. Saíram pelo mesmo muro que ele pulou sem dificuldades, mesmo com ela em seu colo, caminhou apressado, parou apenas quando entrou em sua casa e a deixou estendida na cama.
Kemiah carregava marcas profundas no tornozelo e no pescoço, tocou com cuidado os ferros e descobriu serem feitos de prata pura, ainda bem que ainda não era noite, sentiu uma repulsa pela dor que ela provavelmente sentira durante a noite com aquilo preso à ela. Com cuidado livrou o corpo branco e desejado daquelas coisas.
Deixou a mulher dormir tranquilamente, sentia se cansado, realmente cansado, não fora difícil tira la de lá, mas de alguma forma ainda não se sentia livre do perigo, olhou pela janela e notou o delicado por do sol alaranjado abater se no vidro. Suspirou. Logo ela estaria curada.
Quando ao anoitecer, ambos despertaram de seus cochilos, algo estranho aconteceu. Boris tentou ao máximo livrar se do brilho do luar, sabia que enquanto não tivesse seus olhos brilhantes reluzindo aquele brilho, seria homem. Mas ao aproximar do corpo de Kemiah, afastar o longo e fino cabelo loiro de seu rosto angelical, algo o estarreceu, sua pele reluzia, reluzia um brilho temerosamente conhecido por ele, encostou a ponta do dedo na pele branca de sua amada e sentiu o frio percorrer todo seu corpo seguido de uma raiva quase incontrolável, uma raiva instintiva.
Caiu sentado na cadeira ao lado da cama, ofegava descontrolado, quis sair dali correndo, mas, logo seguiu o pensamento de quem deveria sair dali correndo era ela. Jogou o corpo para trás e caiu de costas no chão, mirou assustado a janela e a lua que já despontava nela, levantou se desesperado, não sabia o que fazer.
Viu a abrir os olhos claros, agora melancolicamente cinzas, sentar delicada na cama, apalpar o corpo, como que estranhando o próprio corpo e sorrir ao ver Boris no canto do quarto. Ela não reparou em sua fisionomia assustada, ela não o viu perceber pontiagudos caninos aparecerem no canto dos lábios com o sorriso.
Aproximar se de seu grande amor foi o suficiente para que ela o sentisse por completo, a mesma raiva instintiva despertando dentro de sua alma, o asco surgindo em seus pensamentos, o corpo quente, os olhos verdes, o corpo selvagem. Aproximar se foi o suficiente para que acordasse. Kemiah começou a chorar, confusa, lágrimas rubras lançavam se por seus delicados e profundos olhos. Manchou todo o rosto quando o tocou ainda mais confusa.
Boris a olhava num misto de pavor e tristeza. Deixou escapar um gemido uivado de seu peito, abaixou a cabeça e saiu do quarto inconformado. A ouviu pronunciar alguns palavrões, e ao deixar se novamente jogar na poltrona abriu os olhos, que irresistivelmente procuraram a janela mais próxima e a bela lua cheia que via se por ela.
Seu corpo tremelicou, sentiu o peito arfar de dor, sua pele descolava se do corpo, dando lugar a grandes e grossos pelos marrons e pretos. Todos os ossos começaram a partir se e estalarem modificando sua forma humana em algo parecido com um lobo, mas esse bem diferente, enorme, uivava de dor, de lástima, de resignação.
Kemiah chorava desesperada no quarto, rogando pragas e maldições aos que a transformaram naquilo. Sabia, ela também, o que estava prestes a acontecer, sabia que não tinham escolhas, não poderiam resistir aos instintos, afinal era apenas por isso que durava a tanto tempo aquela rinha. Sentiu os caninos, finalmente, sentia uma sede de sangue preencher seus pensamentos, sentia seus músculos gritarem. A cada uivo de Boris na sala, era um grito seu no quarto.
Despediriam se da forma mais cruel que poderiam, ela pois a partir daquela noite jamais veria novamente a luz do dia e nem poderia aproximar se com todo seu desejo e tesão de Boris, ele pois a partir daquela noite a repulsaria com toda sua força, sentia nojo de seu cheiro de morte e sangue, e jamais a encontraria dormir entre seus braços e beija la como faziam a mais de dez anos.
Atracaram se no encontro da sala com o quarto, seus corpos fortes e vigorosos destinados a destruição. O grande lobo alcançou o rosto da nova vampira abrindo um talho de carne de seus olhos a sua boca. Ela por sua vez conseguiu, em uma mordida, arrancar lhe um punhado de carne do pescoço. Choravam ambos na luta interminável.
Boris sentiu em suas unhas carne da barriga de Kemiah, ela por sua vez possuía entre seus dentes novos e dilacerantes mais um pedaço considerável de carne de lobisomem. Caíram no chão, cansados, Boris só teve tempo de gemer um uivo dolorido e distante, jogou se pela janela, estilhaçando os vidros, galgou rápido o topo do prédio ao lado e longe conseguiu vê la escorada na janela.
Uivou longamente, enquanto a luz da lua curava lhe os ferimentos. Ela devorou o primeiro humano, um moreno, alto, de olhos verdes, parecido com Boris. Ela ouvia uma vez por mês em todas as luas cheias, o uivo de um lobo a distância, odiava o, mas sempre chorava. Ambos sabiam que jamais estariam nos braços um do outro, a não ser para a morte e a disputa.”
Por hoje é só!


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  1. Como sempre magnifico seu trabalho, você sempre impecável e prefeita.
    Mais um trabalho que mais um trabalho seu encanta.

    Parabéns como sempre.Amei

    Beijos Limiee^^

  2. Ei Cherry, cadê as publicaçoes novas?
    Passo aqui todos os dias na ansia de ler algo novo.

    SNIFF,SNIFF…SNIFF

    Sinto falta da minha leitura diaria FAVORITA.

    Beijos Amanda

  3. Pingback: Mudança de Hábito « Adrianna Alberti

  4. Pingback: À Lua « Adrianna Alberti

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