À Lua

Padrão

Uau, finalmente uma obra inédita, esse conto havia sido enviado para a seleção de uma antologia, porém ela não obteve muita procura e foi cancelada, infelizmente, porém fica aqui o conto para vocês:

À Lua

Poucas são aquelas que sentem as vibrações da lua tão intensas, por baixo da pele, como a onde provocada por um grito que sinuosamente toma conta dos músculos, da corrente sanguínea até sentir a alma tomada por completo. Poucas são as mulheres que sentem essas freqüências mudas que falam ao nosso instinto e eu posso dizer que sou uma delas.

Posso não saber decifra las, mas me acostumei a senti las pelo corpo, despertando algo em mim, que eu não sei explicar muito bem, mesmo hoje, depois de tudo o que li sobre as mulheres dedicadas à Deusa, ou as anciãs muito antigas africanas. Sinto essas ondas pulsantes em meu corpo, quando o percebo querer fugir de mim.

Naquele dia logo pela manhã acordei incomodada com algo, não conseguia prestar atenção direito em quase ninguém, minha rotina estava visivelmente mais enfadonha que o usual. Fui à faculdade como de costume, li e reli várias vezes os textos para a pesquisa. Escrevi muito mal três páginas de caderno de conclusões e mesmo após reler tudo novamente, não sabia ao certo do que se tratava. As paredes da biblioteca pareciam que iam cair em cima de mim, as janelas com grades grossas me sufocavam, olhava tudo com tamanha impaciência que mal pude esperar para ir ao estágio.

O sol se punha no horizonte quando finalmente peguei o ônibus de volta para casa e depois de meia hora de sacolejante trajeto, ao descer no ponto perto de casa, três quadras, uma brisa de fim de tarde fez esvoaçar meu cabelo, reavivando a ânsia de estar fora de mim mesma.

Lembrei tempos antigos em que nessas épocas do mês, entre a Lua Nova e a Lua Crescente eu me vestia com esmero, me maquiava como a uma bonequinha de luxo, pisava o chão em cima de um sapato de salto alto e saia para dançar a noite toda. Escolhia um belo espécime de homem e lhe dava uns poucos beijos para saciar o desejo, voltava para casa e dormia feliz. Com toda certeza meu namorado não aprovaria essas atitudes.

Liguei para ele para saber sobre seu dia, minha voz estava quase que implorando para que ele me chamasse para sair, mas o ouvi reclamar sobre um trabalho de última hora e que ficaria naquilo a noite toda. Suspirei irritada, olhei para o relógio e não eram ainda nem sete horas.

Segui meu ritual noturno, tomei meu banho morno e saí, saltitante, enrolada na toalha vermelha, ouvi meu pai de longe ralhar comigo, dizendo que eu já era grande e deveria sair com roupas do banho, mostrei lhe a língua em sinal de brincadeira e fechei a porta do quarto.

Não me vesti, liguei na tomada a pequena fonte e fiquei ali encantada por alguns minutos vendo a água percorrer todo o caminho terminando no colo das nereidas que enfeitavam a fonte, ascendi o incenso de violeta africana que eu tanto amava e duas grandes velas na prateleira, rocei os pés na gata. Desliguei a luz e deitei na cama.

Pedi silenciosamente para que toda aquela vontade furiosa de liberdade e curiosidade fosse satisfeita, que eu não traísse nem enganasse ninguém nesse percurso, sem perdas nem danos à ninguém, mas que eu conseguisse acalmar o grito louco que me escapava da alma.

Então decidi sair, olhei para fumaça que saía do incenso e pude notar um sorriso a me apoiar e me senti segura. Escolhi meu vestido preto decotado, acabava um pouco acima dos joelhos e dava um ar juvenil à minha face cansada, uma sapatilha preta e não me maquiei, quis sair como viera ao mundo, apenas me enfeitei com uns brincos e pulseiras e saí sem rumo.

Deixei meus instintos e às estranhas vibrações guiarem o carro para onde fosse possível, rodei por uma hora pela cidade até parar por conta de um semáforo fechado na esquina de um prédio de fachada vermelha e roxa, com um nome brega, contornei e entrei naquele lugar mesmo. O local me fez pensar se minha mãe não iria para lá, ou então minha avó, era um lugar com partes abertas partes fechadas, a fechada em especial tinha um palco e uma banda pop tocava uma música em inglês pobre, o lugar fedia a cigarro sentei do lado de fora, com vista especial para lua, que senti sorrir para mim.

Pedi um refrigerante, afinal ainda teria de dirigir de volta para casa, deveria mesmo era ter vindo de táxi, queria beber uma vodka.

– Mulher nunca deve beber sozinha, me permite?

Aquela voz soou feito encanto, um belo moreno de aparência perdida me pedia permissão para beber comigo, dois pares de olhos verdes e os cabelos desgrenhados negros davam lhe um ar um tanto selvagem, de calça jeans, uma camiseta de banda de rock antigo e um sorriso convidativo. Não me deixou outra opção se não permitir. Ele sentou se ao meu lado e por algum motivo algo em seu jeito condizia com a minha ânsia.

Conversamos por tempo indeterminado. Falávamos sobre música, danças, bebidas, shows de rock, bandas que só conhecia pelo meu pai, sua voz era grossa e seu português precário, mas sua gargalhada era tão contagiante que sua rebeldia passava batido. Ele trabalha com construção e me perguntei se como pedreiro ou engenheiro, era o último de sete irmãos e se chamava Boris, ri mentalmente do nome, meu pastor alemão chamava se Boris, mas preferi não comentar. Ele ainda me contou tantas aventuras que não caberia uma noite reconta las, viagens e esportes que praticava.

Atentei especialmente em seus braços, parecia ser forte, do tipo musculoso mesmo, queria lhe tocar os braços, conferir, mas me lembrei do meu namorado, desisti. Sorri displicente encobrindo minhas vontades adolescentes.

Ele me irritou ao servir refrigerante em meu copo e resolvi brincar, molhei a ponta da língua do líquido colorido e encantei a bebida para que ela fosse um elo de nossos pensamentos. Ofereci a ele um gole, que servente tomou três goles sem perceber e no mesmo instante com o resultado que eu esperava pude ver seus olhos brilharem.

Comentei com ele sobre o calor que fazia e ele brusco colocou minha mão em seu rosto, disse que era a fonte da alta temperatura e me assustei, perguntei se não era febre ao que ele me confirmou ser sempre quente assim. Podia ler sua mente e estranhamente via cenas de campos abertos e sombras que pareciam grandes cães correram livres, sorri cúmplice de seus pensamentos, eu compartilhava aquela sensação de liberdade e calor ao tocar lhe os dedos, ele exalava paixão e eu satisfazia a minha no contato com sua pele.

Desviei meus pensamentos por segundos dos de Boris, senti passos virem em minha direção, um arrepio insistia em percorrer meus pelos. Pude ouvir em minha mente uma risada suave, irônica, um sentimento desafiador despontar no coração. Dei conta de uma nova presença na mesa ao sentir um perfume disparar meu coração, olhei atônita para o lado e fiquei completamente ruborizada, pude ouvir ainda um choro baixo parecido com um cão triste, aquele caim caim de quando brigamos com nossos cães e Boris me fitava decepcionado me fazendo corar mais ainda.

O estranho pediu licença à Boris dizendo que gostaria ele de me fazer companhia agora, este levantou derrotado, visivelmente contrariado, da mesa e cedeu lugar:

– Este é Hugo, um velho, e digo realmente velho, conhecido meu. – esboçou um sorriso de revanche e o viu sentar, saindo de forma tão silenciosa que não me despedi dele.

Estava tão encantada com o homem alvíssimo e tão bem vestido sentado à minha frente que nem pude notar quando ele me ofereceu um copo com vodka cheio de pedaços de morangos dentro, tomei delicada, cada gota da bebida e ao pedir mais um é que me dei conta da situação. Cercada de dois ilustres desconhecidos, aparentemente conhecedores e dominadores das suas vibrações estranhas. Olhava para um e conseguia ver nitidamente um lobo de orelhas baixas, entristecido por ter sido abandonado, olhava para o outro, minha mente me mostrava um homem frio, calculista de olhos vermelhos sedentos com uma taça nas mãos contendo um líquido grosso vermelho. Porque não? Falava uma voz baixa em minha mente, você é uma bruxa criada no instinto, dizia para mim mesma, um é lobo e o outro vampiro. Qual o problema?

Tentei encantar Hugo e nos ligar por elo de bebida como havia feito com Boris, mas esperto recusou e disse ao pé do meu ouvido:

– Não sou tolo como aquele lobo, sinto muito! Não vou ser enfeitiçado bruxa.

Puxou me para dançar e disse resoluto que já que eu queria dar vazão aos meus instintos ele ajudaria. Dançamos sem parar, nem sei que música, mas seu corpo tão junto ao meu embalava uma sinfonia nunca antes ouvida. Sentia me arrepiada com sua voz tão próxima, contava suas conquistas amorosas com frases picantes e maliciosas.

A certa altura, vi em minhas mãos novamente o copo de vodka com morangos, eu ria solta e livre, estava mesmo satisfazendo minhas vontades e ânsias de liberdade. Hugo pediu que nos despedíssemos, mordisquei o canto da boca em sinal de contrariedade e ele me olhou com tanta devassidão que quase me arrependi do que fiz.

– Uma última dança então, feche os olhos.

Sabia pelos meus próprios conhecimentos que estava dançando com ele, mas o que se desenhava em minha mente foi me preenchendo de excitação, foi transtornando meus pensamentos e pouco a pouco fui desejando não estar ali, apenas dançando. Pude sentir ele me morder, vociferar em meu pescoço buscando meu sangue, mas sabia estar simplesmente ali dançando com ele.

Quando a música acabou eu estava tão excitada que só consegui ouvi lo dizer para procurar quem realmente satisfazia minhas vontades e me dar adeus, ainda me despedi de Boris e peguei meu carro.

Cada rua parecia infinita, parei em frente ao prédio do meu namorado e liguei para ele, estava enfeitiçada por magia desconhecida, pedi para que ele descesse e saísse cinco minutos comigo, pois era urgente.

Fizemos amor como não me lembro termos feito um dia. Dei minhas forças à ele mil vezes aquela noite simplesmente para que eu pudesse me saciar. Terminamos enrolados entre lençóis e pernas, ele ofegava fortemente, falou algo referente a gostar de mim selvagem e sedutora. Sorri envergonhada e o vi adormecer. Vi Hugo e Boris em minha mente e agradecendo à vida adormeci nos braços do meu amor.

 

Para quem leu O Uivo do Lobo e Da Diferença podem conferir a idéia e a evolução do Victor e do Boris, mais ou menos… Bom quero as opiniões de vocês hein! Beijos!

 

 

Anúncios

»

    • Bons encontros sempre rendem continuações, mas esse especificamente não sei. Boris e Victor com certeza possuem, várias continuações! Obrigada pela visita e pelo comentário!!
      Não deixe de opinar sobre os outros contos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s