Alita e o Rei

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Um conto inédito, também enviado para uma antologia que por falta de procura acabou cancelada. Esse conto escrevi logo após terminar de ler As Mil e Uma Noites, Sherazade é mestra e quando crescer quero ser igual a ela.

 

Alita e o Rei

A magnífica princesa sentou se então no centro da roda, o sol no meio do céu lhe iluminava especialmente, cercada do ancião contador de histórias e também de toda a platéia que estava ali para ouvir o velho do deserto, pediu lhe desculpas e solicitou a palavra, prometeu lhe uma história inesquecível e assim iniciou:

“Essa história, eu ouvi de minha mãe, nossa rainha, sobre seu avô, meu parente distante e de como o nobre rei tornou se conhecido como é.”

‘Desde criança seus olhos sempre demonstraram a altivez de sua linhagem, menino branquinho, de bochechas rosadas, gênio quase indomável.

Criado pelos melhores para ser o mais grandioso homem que sua família jamais vira: dos sábios aprendeu o conhecimento antigo e as idéias novas, de seu pai, o vigor, o controle, a sede de poder e o desejo pelas mulheres, dos grandes generais descobriu o trabalho árduo, a força física e a arte da estratégia e da guerra, e dos encantos de sua bela mãe aprendeu a ludibriar as mulheres, ama-las, respeita-las e principalmente a teme – las.

Quando no auge de seus vinte anos o pai faleceu, assumiu o trono e governou com mãos de ferro, anexou imensas terras às suas, tornando o pequeno reino no maior de toda a redondeza, casou se e teve filhos e filhas para seguir seus passos e continuar seu grandioso trabalho.

Possuía as mulheres mais belas de seu reino, amantes constantes e secretas, das negras de cinturas e seios fartos, das raquíticas mulheres naturais do reino de pele branca e pintas por todo o corpo e cabelos de fogo às mulheres vindas do sul cor de bronze e olhos astutos e silêncio servil.

Porém depois de anos de vitórias, glórias e conquistas, o rei notou estranha mudança lhe ocorrer, não sentia mais vontade de guerrear e tomar reinos ao redor do seu, não mais tinha atenção para acompanhar seus soldados, nem mais disposição para estudar as descobertas dos sábios. Empalideceu e perdeu a definição de seus músculos invejados e desejados, não possuía mais o desejo por suas mulheres e nem mesmo à cama da rainha, sua esposa, ele comparecia todas as noites. Perdeu seu esplendor de rei, de macho, de pai, de guerreiro.

Adquiriu uma rotina manhosa, alimentada por Naila, sua fiel e gentil serva, e em seus afazeres mantinha se sentado no pequeno trono adaptado na sacada de seu suntuoso quarto no palácio.

Rainha, conselheiros, sábios, todos preocupados iniciaram festins e comemorações para agradar ao rei. Eram dias e noites com dança, música, animais exóticos, mulheres exóticas, até uma arena improvisaram para que homens lutassem até a morte para aguçar a sede de sangue do rei.

Seguiram se dias, semanas, meses e cada vez mais o reino tornava se o ponto de encontro dos espécimes mais engraçados e misteriosos. Todo o aparato militar do reino era, destinado para a segurança do próprio, foram tempos de paz monótona e infeliz.

Os meses tornaram se anos e depois de sete anos, o rei já havia desistido, procurara magos, feiticeiros, religiosos vindos do deserto, plantas, sucos, ungüentos, testou todo conhecimento que o seu mundo poderia possuir.

O rei confidenciava seus desejos à fiel serva Naila, menina simpática, de magreza infindável e de olhos perspicazes. Numa noite ela pediu a permissão do rei para que as mulheres de seu povo, banidas à muito tempo, pudessem dançar ao rei, justificou se afirmando que eram as únicas que ainda não haviam tido a chance de reanima lo devido à proibição secular. E assim o rei permitiu.

Naila preparou com esmero a noite, e o rei aguardava sem ansiedade alguma, para ele era só mais um grupo qualquer que iria entreter a rainha e todo o resto da corte.

O ambiente estava repleto de incensos desconhecidos, de cheiros adocicados e fortes, enormes pedaços de sedas vermelhas, violetas e pretas caiam dos cantos do grande salão, toda a mobília do salão fora retirada e dera lugar à grandes almofadas negras, tapetes de desenhos peculiares e taças enormes de vinho.

Um tambor ao longe começou a ser ouvido, depois outro e outro. Duas meninas pequenas surgiram pelas portas frontais cobertas de roupas coloridas, saltitando e cantando, em voz baixa, então surgiram mais e mais mulheres, todas da cor do bronze, de olhos arredondados vivos, de cabelos presos da cor da noite.

Os homens no lugar paralisaram como encantados, até mesmo o rei, sem perceber, demonstrou depois de anos curiosidade e atenção.

A noite seguiu com danças de sua cultura, sensuais e maliciosas, decidas e vigorosas, em momento nenhum elas encostavam os homens, mas em todo momento eles se sentiam tocados, desde a pela macia da face, até as partes cobertas de roupas, sentiam seus membros reagirem e desejarem incontrolavelmente dançar com aquelas mulheres.

A dança culminou com a apresentação de uma única dama, trajada de outro e pérolas, de rubis e diamantes, todos, inclusive o rei, renderam se a ela àquela noite. Com sua dança misteriosa e seus movimentos iguais a de uma serpente.

Ao fim das festividades, o rei ordenou pela primeira vez em anos, exigiu que Naila apresentasse àquela mulher à ele, A dos olhos castanhos claros. Ele repetia encantado.

E alegre Naila a apresentou, Alita, a de olhos claros, a de pele mais bronze que todas as outras, a que possuía o desenho de um olho em sua nuca.

Por muito tempo o rei contentou se em admira la, conversar e exibir se para a jovem. Por muito tempo o rei tomava o vinho que ela servia e ouvia suas histórias, assistia, compenetrado, suas danças, seguidas, sempre das duas pequenas meninas de vestes coloridas.

Quando Alita aceitou deitar se na cama do rei e assim tornar se sua única amante, e era essa sua única condição, o rei sentiu se como em seus grandes tempos, e assim iniciou um novo tempo.

Novamente seu reino cresceu dessa vez mais forte, mais decidido, mais dominante, seguindo as sugestões de Alita, o rei tomou todos os reinos ao norte e ao oeste, também subjugou os sábios e conselheiros, que nada puderam fazer a não ser aceitar.

O rei havia proibido casamentos sem sua permissão e depois disso, as nobres famílias viram se obrigadas a casar com a plebe, apenas o rei detinha poder, tanto em riqueza quanto em sangue.

Alita tornou o rei um homem mais do que centrado, tornou o um homem que não divagava mais, era astuto na medida em que deveria ser. Era rei, na medida em que deveria ser.

Numa noite, a rainha desesperada, realizou sua última tentativa de trazer o rei à sua normalidade, correu com um punhal para atacar Alita, que sossegada nada precisou fazer, num rompante mais desesperado ainda, o rei chocou se contra a rainha, ergueu a pelo pescoço e sacudiu a. Alita ria da cena, como se visse um gracejo do bobo da corte, a rainha chorava compulsiva e dolorosa. No dia seguinte o rei a condenou a morte por traição.

E depois de alguns meses, deitado após ter sido satisfeito por Alita, o rei a questionou porque de sua sina estranha, pois era apenas por ela que ele movia se e governava, nada ainda lhe trazia vontade de viver, apenas ela.

Alita coberta por um lençol de seda apoiada no parapeito da janela riu se. Tornou para o rei e sentenciou:

Meu caro senhor, o que irei lhe contar é um feito grandioso, não apenas para mim, mas para toda a minha tribo.

Fora primeiramente envenenado, para que todos os seus desejos fossem mortificados, cada gole de seus líquidos, cada pedaço de seu alimento, possuía um veneno peculiar, que lhe foi tirando toda a sua vontade de viver. Naila é bem sabida dessas artes, por isso fora escolhida por nós para ser sua fiel e leal servidora.

Depois meu senhor, tudo fora por capricho, passamos sete anos rindo da verdadeira brincadeira que armaram para o senhor, sabe, fora uma sugestão de Naila à nossa rainha que logo a acatou.

Quando percebemos a fragilidade de toda a estrutura de seu reino, decidimos agir, não precisou de muita saliva para que aceitasse à idéia de nos trazer para o reino, para a apresentação em que me conheceu.

O rei em nada a contrariava, em nada a destituía de razão, ouvia a sentenciar toda a verdade calado, e por vezes sentia se completamente admirado por sua esperteza e por fim ela concluiu:

O senhor sabe por quê as mulheres das aldeias do sul foram banidas? Porque desde há muito tempo somos temidas por nossa sabedoria, nossa magia mais poderosa, seus sábios temiam por suas posições confortáveis, temos gênios e fadas e magos, todos sob nossos comandos.

Demoraram anos até o filho fraco nascer, o senhor nascesse. As minhas queridas irmãs rezaram corretamente no dia em nos conhecemos meu senhor, aquela, fora uma dança de noivado, uma apresentação de uma noiva a um noivo, a minha apresentação ao senhor.

Porém, não somos mulheres servis como pensa, e amanhã logo cedo meu amor, eu sei que irá anunciar nosso casamento, e com ele, meu governo, e sabe porque eu sei? Porque eu o encantei para me obedecer, cada vez que tomou o meu corpo para si, cada vez que beijou minha boca, cada gole de vinho, ou melhor, cada gole do meu sangue, foi se tornando cada vez meu leal servo, amanhã serei rainha. Amanhã finalmente, as mulheres das tribos do sul tomaram o poder meu senhor.

E sentou se ao lado do tolo reizinho, que fiel e leal servo que tornara se, beijou as faces de sua senhora, deitou se na cama e dormiu.

E nunca mais aquele rei fora rei novamente e até hoje somente por ter sido consorte de Alita é que ele é reconhecido. ’”

E o público olhava surpreso, a princesa sentia se rejubilada, levantou se e despediu se agradecendo por lhe darem à palavra, e todos como que encantados só notaram que ela se fora quando a lua despontava no céu e o seu perfume se desfazia com o vento.

 

E então o acharam?? Beijos

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