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Processo Criativo!

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Olá!

Hoje vou postar um pouco sobre meu processo criativo. Eu acho que para escrever precisa, sim, de um pouco de inspiração, o que ajuda muito no processo criativo é música.

Para mim alguns gêneros musicais me ajudam a pensar em histórias inteiras, outros casos, músicas específicas me inspiram a um personagem, há também alguns casos em que os cantores(as) aliados ao tom de voz e à música que produzem que instigam uma história, um personagem, o clima de uma ideia… Enfim.

Hoje eu vou dividir um pouco a música que me introduz ao (meu) universo vampírico. Quando que quero escrever com vampiros e não consigo desenrolar a escrita eu coloco músicas como HIM, Apocalyptica e músicas com pegadas mais sombrias.

Há casos em que uma única música me inspira tanto que diversos contos tem ela de fundo, é o caso de Fantasia em O Grimoire dos Vampiros, e outros contos em que há relação entre uma bruxa e um vampiro por exemplo. Essa música é Bittersweet do Apocalyptica com Ville Valo e Lauri Ylönen

Como acontece? Bom, na minha concepção vampiros são sombrios, mesmos aqueles que não vão estripar ou sugar até a última gotícula de sangue, eles são misteriosos e superiores de uma forma natural, sem exageros (embora o exagero não esteja totalmente excluído de suas personalidades), em geral meus vampiros são também distantes e sensuais. E combinam especificamente com esse tipo de música citada acima, com um clima sombrio e gostoso de ouvir. Então, no meu processo criativo há uma espécie de ligação entre personagem-história e a música. Se ao escrever um conto ouvindo a música e a melodia dela passa de suave para pesada, eu acabo acompanhando a melodia e descrevendo cenas de suaves e delicadas para tensas e sensuais.

Bom, hoje eu dividi um pouquinho do meu universo vampírico com vocês! Da próxima pretendo trazer um fundo do universo das bruxas ou dos demônios…

Beijos

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À Lua

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Uau, finalmente uma obra inédita, esse conto havia sido enviado para a seleção de uma antologia, porém ela não obteve muita procura e foi cancelada, infelizmente, porém fica aqui o conto para vocês:

À Lua

Poucas são aquelas que sentem as vibrações da lua tão intensas, por baixo da pele, como a onde provocada por um grito que sinuosamente toma conta dos músculos, da corrente sanguínea até sentir a alma tomada por completo. Poucas são as mulheres que sentem essas freqüências mudas que falam ao nosso instinto e eu posso dizer que sou uma delas.

Posso não saber decifra las, mas me acostumei a senti las pelo corpo, despertando algo em mim, que eu não sei explicar muito bem, mesmo hoje, depois de tudo o que li sobre as mulheres dedicadas à Deusa, ou as anciãs muito antigas africanas. Sinto essas ondas pulsantes em meu corpo, quando o percebo querer fugir de mim.

Naquele dia logo pela manhã acordei incomodada com algo, não conseguia prestar atenção direito em quase ninguém, minha rotina estava visivelmente mais enfadonha que o usual. Fui à faculdade como de costume, li e reli várias vezes os textos para a pesquisa. Escrevi muito mal três páginas de caderno de conclusões e mesmo após reler tudo novamente, não sabia ao certo do que se tratava. As paredes da biblioteca pareciam que iam cair em cima de mim, as janelas com grades grossas me sufocavam, olhava tudo com tamanha impaciência que mal pude esperar para ir ao estágio.

O sol se punha no horizonte quando finalmente peguei o ônibus de volta para casa e depois de meia hora de sacolejante trajeto, ao descer no ponto perto de casa, três quadras, uma brisa de fim de tarde fez esvoaçar meu cabelo, reavivando a ânsia de estar fora de mim mesma.

Lembrei tempos antigos em que nessas épocas do mês, entre a Lua Nova e a Lua Crescente eu me vestia com esmero, me maquiava como a uma bonequinha de luxo, pisava o chão em cima de um sapato de salto alto e saia para dançar a noite toda. Escolhia um belo espécime de homem e lhe dava uns poucos beijos para saciar o desejo, voltava para casa e dormia feliz. Com toda certeza meu namorado não aprovaria essas atitudes.

Liguei para ele para saber sobre seu dia, minha voz estava quase que implorando para que ele me chamasse para sair, mas o ouvi reclamar sobre um trabalho de última hora e que ficaria naquilo a noite toda. Suspirei irritada, olhei para o relógio e não eram ainda nem sete horas.

Segui meu ritual noturno, tomei meu banho morno e saí, saltitante, enrolada na toalha vermelha, ouvi meu pai de longe ralhar comigo, dizendo que eu já era grande e deveria sair com roupas do banho, mostrei lhe a língua em sinal de brincadeira e fechei a porta do quarto.

Não me vesti, liguei na tomada a pequena fonte e fiquei ali encantada por alguns minutos vendo a água percorrer todo o caminho terminando no colo das nereidas que enfeitavam a fonte, ascendi o incenso de violeta africana que eu tanto amava e duas grandes velas na prateleira, rocei os pés na gata. Desliguei a luz e deitei na cama.

Pedi silenciosamente para que toda aquela vontade furiosa de liberdade e curiosidade fosse satisfeita, que eu não traísse nem enganasse ninguém nesse percurso, sem perdas nem danos à ninguém, mas que eu conseguisse acalmar o grito louco que me escapava da alma.

Então decidi sair, olhei para fumaça que saía do incenso e pude notar um sorriso a me apoiar e me senti segura. Escolhi meu vestido preto decotado, acabava um pouco acima dos joelhos e dava um ar juvenil à minha face cansada, uma sapatilha preta e não me maquiei, quis sair como viera ao mundo, apenas me enfeitei com uns brincos e pulseiras e saí sem rumo.

Deixei meus instintos e às estranhas vibrações guiarem o carro para onde fosse possível, rodei por uma hora pela cidade até parar por conta de um semáforo fechado na esquina de um prédio de fachada vermelha e roxa, com um nome brega, contornei e entrei naquele lugar mesmo. O local me fez pensar se minha mãe não iria para lá, ou então minha avó, era um lugar com partes abertas partes fechadas, a fechada em especial tinha um palco e uma banda pop tocava uma música em inglês pobre, o lugar fedia a cigarro sentei do lado de fora, com vista especial para lua, que senti sorrir para mim.

Pedi um refrigerante, afinal ainda teria de dirigir de volta para casa, deveria mesmo era ter vindo de táxi, queria beber uma vodka.

– Mulher nunca deve beber sozinha, me permite?

Aquela voz soou feito encanto, um belo moreno de aparência perdida me pedia permissão para beber comigo, dois pares de olhos verdes e os cabelos desgrenhados negros davam lhe um ar um tanto selvagem, de calça jeans, uma camiseta de banda de rock antigo e um sorriso convidativo. Não me deixou outra opção se não permitir. Ele sentou se ao meu lado e por algum motivo algo em seu jeito condizia com a minha ânsia.

Conversamos por tempo indeterminado. Falávamos sobre música, danças, bebidas, shows de rock, bandas que só conhecia pelo meu pai, sua voz era grossa e seu português precário, mas sua gargalhada era tão contagiante que sua rebeldia passava batido. Ele trabalha com construção e me perguntei se como pedreiro ou engenheiro, era o último de sete irmãos e se chamava Boris, ri mentalmente do nome, meu pastor alemão chamava se Boris, mas preferi não comentar. Ele ainda me contou tantas aventuras que não caberia uma noite reconta las, viagens e esportes que praticava.

Atentei especialmente em seus braços, parecia ser forte, do tipo musculoso mesmo, queria lhe tocar os braços, conferir, mas me lembrei do meu namorado, desisti. Sorri displicente encobrindo minhas vontades adolescentes.

Ele me irritou ao servir refrigerante em meu copo e resolvi brincar, molhei a ponta da língua do líquido colorido e encantei a bebida para que ela fosse um elo de nossos pensamentos. Ofereci a ele um gole, que servente tomou três goles sem perceber e no mesmo instante com o resultado que eu esperava pude ver seus olhos brilharem.

Comentei com ele sobre o calor que fazia e ele brusco colocou minha mão em seu rosto, disse que era a fonte da alta temperatura e me assustei, perguntei se não era febre ao que ele me confirmou ser sempre quente assim. Podia ler sua mente e estranhamente via cenas de campos abertos e sombras que pareciam grandes cães correram livres, sorri cúmplice de seus pensamentos, eu compartilhava aquela sensação de liberdade e calor ao tocar lhe os dedos, ele exalava paixão e eu satisfazia a minha no contato com sua pele.

Desviei meus pensamentos por segundos dos de Boris, senti passos virem em minha direção, um arrepio insistia em percorrer meus pelos. Pude ouvir em minha mente uma risada suave, irônica, um sentimento desafiador despontar no coração. Dei conta de uma nova presença na mesa ao sentir um perfume disparar meu coração, olhei atônita para o lado e fiquei completamente ruborizada, pude ouvir ainda um choro baixo parecido com um cão triste, aquele caim caim de quando brigamos com nossos cães e Boris me fitava decepcionado me fazendo corar mais ainda.

O estranho pediu licença à Boris dizendo que gostaria ele de me fazer companhia agora, este levantou derrotado, visivelmente contrariado, da mesa e cedeu lugar:

– Este é Hugo, um velho, e digo realmente velho, conhecido meu. – esboçou um sorriso de revanche e o viu sentar, saindo de forma tão silenciosa que não me despedi dele.

Estava tão encantada com o homem alvíssimo e tão bem vestido sentado à minha frente que nem pude notar quando ele me ofereceu um copo com vodka cheio de pedaços de morangos dentro, tomei delicada, cada gota da bebida e ao pedir mais um é que me dei conta da situação. Cercada de dois ilustres desconhecidos, aparentemente conhecedores e dominadores das suas vibrações estranhas. Olhava para um e conseguia ver nitidamente um lobo de orelhas baixas, entristecido por ter sido abandonado, olhava para o outro, minha mente me mostrava um homem frio, calculista de olhos vermelhos sedentos com uma taça nas mãos contendo um líquido grosso vermelho. Porque não? Falava uma voz baixa em minha mente, você é uma bruxa criada no instinto, dizia para mim mesma, um é lobo e o outro vampiro. Qual o problema?

Tentei encantar Hugo e nos ligar por elo de bebida como havia feito com Boris, mas esperto recusou e disse ao pé do meu ouvido:

– Não sou tolo como aquele lobo, sinto muito! Não vou ser enfeitiçado bruxa.

Puxou me para dançar e disse resoluto que já que eu queria dar vazão aos meus instintos ele ajudaria. Dançamos sem parar, nem sei que música, mas seu corpo tão junto ao meu embalava uma sinfonia nunca antes ouvida. Sentia me arrepiada com sua voz tão próxima, contava suas conquistas amorosas com frases picantes e maliciosas.

A certa altura, vi em minhas mãos novamente o copo de vodka com morangos, eu ria solta e livre, estava mesmo satisfazendo minhas vontades e ânsias de liberdade. Hugo pediu que nos despedíssemos, mordisquei o canto da boca em sinal de contrariedade e ele me olhou com tanta devassidão que quase me arrependi do que fiz.

– Uma última dança então, feche os olhos.

Sabia pelos meus próprios conhecimentos que estava dançando com ele, mas o que se desenhava em minha mente foi me preenchendo de excitação, foi transtornando meus pensamentos e pouco a pouco fui desejando não estar ali, apenas dançando. Pude sentir ele me morder, vociferar em meu pescoço buscando meu sangue, mas sabia estar simplesmente ali dançando com ele.

Quando a música acabou eu estava tão excitada que só consegui ouvi lo dizer para procurar quem realmente satisfazia minhas vontades e me dar adeus, ainda me despedi de Boris e peguei meu carro.

Cada rua parecia infinita, parei em frente ao prédio do meu namorado e liguei para ele, estava enfeitiçada por magia desconhecida, pedi para que ele descesse e saísse cinco minutos comigo, pois era urgente.

Fizemos amor como não me lembro termos feito um dia. Dei minhas forças à ele mil vezes aquela noite simplesmente para que eu pudesse me saciar. Terminamos enrolados entre lençóis e pernas, ele ofegava fortemente, falou algo referente a gostar de mim selvagem e sedutora. Sorri envergonhada e o vi adormecer. Vi Hugo e Boris em minha mente e agradecendo à vida adormeci nos braços do meu amor.

 

Para quem leu O Uivo do Lobo e Da Diferença podem conferir a idéia e a evolução do Victor e do Boris, mais ou menos… Bom quero as opiniões de vocês hein! Beijos!

 

 

Mudança de Hábito

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Da Diferença

Ela era acostumada com noites sempre frias, de medo e um desejo incompreensível tomando sempre conta de seus sonos. A noites insones, que aliás já sabia contar as horas pelas estrelas e mesmo quando o céu enegrecia por completo, sabia exatamente o momento em que o sol iria nascer. Era acostumada a uma vida dupla, de dias mal aproveitados e incomôdos, sem ânimo e alegria.

Acostumada a uma voz seca e decidida, a lhe falar sobre tempos que só conhecia por livros. A dedos finos e sem vida a tocarem sua nuca e sentir percorer um arrepio por todo o corpo. Era acostumada a receber um amor incomum, ao mesmo tempo atento ao mesmo tempo distante. Era acostumada a lhe cantar Rita Lee quando via que o dia já ia amanhecer.

Eram donos de uma paixão tórrida, daquelas que não medem limites, era chão, cama, sofá, amurada do jardim, portão de ferro do cemitério da cidade, prédio abandonado, edifício em construção.

Era senhora de uma de um amante exigente, ciumento e possesivo, perseguidor de seuss passos a partir do cair do dia, era acostumada a ter todos os desejos satisfeitos, sem nem ao menos ter de pronuncia los em voz, bastava pensar.

Mas naquela noite não iria ter seu vampiro a lhe satisfazer os desejos, esse jazia infeliz no jardim da sua casa por tentar satisfazer mais um desejo não pronunciado. Naquela noite se martirizava, sozinha, em um bar.

Essa noite, um estranho lhe sorrirá encantado, moreno de beleza selvagem, essa noite será diferente. Um ser igualmente duplo, assim como ela, lhe tomará a atenção, lhe esquentará mesmo sem lhe tocar, lhe contará história que não sabia existir e lhe fará gargalhar ao uivar para lua.

Nessa noite, acostumada a uma pele fria e esquelética recostar na sua para adormecer, sentirá firmes braços musculosos, cheio de um calor todo próprio, violento, desinibido e inebriante. Virá a se aconchegar nos braços dessa nova estranha criatura, e sentirá a deliciosa sensação de trair a velha espécie que outrora lhe amava.

Este mini conto, foi enviado para tentar uma participação no Fanzine Adoravél Noite do Adriano Siqueira. Foi a partir desse conto que elaborei a idéia do Victor e do Boris, vampiro e lobisomem respectivamente. Escrevi um conto com os dois, que ainda é inédito pois espero o resultado de uma seleção de antologia. E tem o conto O Uivo do Lobo, que já postei por aqui, esse só com o Boris.

Quem sabe da próxima vez escrevo uma história maior com os dois, não será por falta de vontade.

Beijos

O Uivo do Lobo

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Boa tarde, trago hoje um conto inédito, escrito de última hora e como uma espécie de desafio, afinal, é o primeiro conto em que insiro realmente e tentei fazer como personagem principal, um lobisomem.

O Uivo do Lobo

Acordou novamente sonolento, sem forças, embora em suas veias correrem vida, fogo e vontade. Estava deitado no chão duro e cinza de uma rua escondida entre grandes avenidas, era aquecido por um emaranhado de pelos marrons e pretos, soltos e compridos, que serviam de acolchoamento para o chão.
Olhou seu corpo moreno, totalmente nu, suava com o contato dos pelos, bocejou preguiçoso, sentiu suas partes tocarem o chão da ruela, arrependeu se de ter ido tão longe àquela noite. Procurou ali entre os caixotes de papelão desfeitos e os pobres mortais que dormiam encolhidos pelo frio, algumas peças de roupas, não precisavam caber lhe perfeitamente, logo estaria em sua casa e poderia tomar um merecido banho.
Largou se na poltrona de tecido barato, ainda enrolado na toalha de algodão, sentia calor por todos os viventes da terra, suava e mal tinha saído do chuveiro. Coçou a cabeça molhada, remexendo o cabelo sempre desgrenhado, suspirou preocupado. Pegou seu celular e discou um número que sabia de cor, ouviu apenas os toques de chamada, sem, no entanto, ser atendido, por onde ela andaria?
Tocou o braço onde uma longa e esbranquiçada marca desenhava se do pulso ao ombro, forçou a mente a lembrar se onde havia ganho aquele presente, mas nada. Não lembrava se de nada da noite anterior, fora o que ainda havia feito ou visto enquanto ainda não havia tido o brilho da lua a espelhar seus olhos verdes.
Enfiou se nas suas calças jeans desbotadas, a camiseta preta com dizeres impronunciáveis em sua língua, jogou o cabelo para trás, calçou suas botas pretas e olhou para o relógio, ainda eram onze horas da manhã, teria tempo. Poderia encontra la antes da lua cheia desenhar se no céu.
Farejou os ares poluídos da cidade, andava tranquilamente por entre os rostos tão desconhecidos, todos ali vestidos de peles e tecidos grossos, ele apenas com a sua camiseta de rock antigo. Boris passava e várias mulheres sentiam seu calor, algumas se abanavam, outras viravam o pescoço para seguir ainda um pouco de seu cheiro. Mas sua fisionomia fechada e truncada não permitia a nenhuma delas ir a seu encontro.
Estagnou próximo a um casarão, velho e podre por si só, antigo, jamais saberia contar o tempo daquela residência por sua arquitetura, mas sabia que aquilo era velho. Sentiu o cheiro da morte que exalava daquela construção, sentiu um ímpeto de vomitar o nojo que sentia, mas engoliu em seco o gosto amargo daquele lugar. Sentou se em um bar, do outro lado da rua, observando, ouvindo e cheirando ao ar, por horas. Quando finalmente pressentiu que aquele era um lugar seguro, entrou por uma rua paralela, entrando por um muro escondido por altas árvores, no quintal do casarão.
Fungou o ar, farejou o perigo adormecido. Mas estava seguro, ainda faltavam muitas horas até o anoitecer. Entrou sorrateiro e silencioso por uma janela aberta, a casa por dentro era tão, ou mais, mal conservada. O cheiro de morte e decomposição misturava se ao cheiro de madeira apodrecida e úmida, novamente o nojo.
Seus pelos arrepiaram se, principalmente na nuca e nas costas, farejou novamente o ar, perigo, ainda adormecido. Logo alguns ruídos de passos chamaram sua atenção, subiu uma longa escada, passou por um corredor e ao final dele, uma porta entre aberta exalava um perfume conhecido, doce, suave. Sabia que não se enganaria.
Abriu a porta delicadamente, sem tentar tirar dela nem um rangido sequer, e a viu, sua Kemiah, agachada em um canto do quarto, totalmente escuro, a luz que banhava o lugar era apenas a luz que a porta aberta permitia passar, farejou aquele quarto, sentiu o medo absurdo que misturou se com o doce perfume. Tentou balbuciar alguma palavra, mas sabia que não deveria acordar nenhum perigo que dormia ali, seja qual fosse.
Aproximou se do corpo fragilizado da mulher, estendeu sua mão para o rosto delicado dela, ouviu por um instante ela farejar a pele e logo em seguida sentiu o corpo dela jogar se e aconchegar se em si. Tateou seu corpo e sentiu pequenas correntes de ferro prender lhe um dos tornozelos e o pescoço e sem muito esforço estilhaçou os elos, deixando apenas as peças de aço presas no corpo.
Carregou a por todo o casarão, ela soluçava em seu peito quente, sentia a mais fria que o comum, mas não se atentou, quis apenas retira la daquele cativeiro. Saíram pelo mesmo muro que ele pulou sem dificuldades, mesmo com ela em seu colo, caminhou apressado, parou apenas quando entrou em sua casa e a deixou estendida na cama.
Kemiah carregava marcas profundas no tornozelo e no pescoço, tocou com cuidado os ferros e descobriu serem feitos de prata pura, ainda bem que ainda não era noite, sentiu uma repulsa pela dor que ela provavelmente sentira durante a noite com aquilo preso à ela. Com cuidado livrou o corpo branco e desejado daquelas coisas.
Deixou a mulher dormir tranquilamente, sentia se cansado, realmente cansado, não fora difícil tira la de lá, mas de alguma forma ainda não se sentia livre do perigo, olhou pela janela e notou o delicado por do sol alaranjado abater se no vidro. Suspirou. Logo ela estaria curada.
Quando ao anoitecer, ambos despertaram de seus cochilos, algo estranho aconteceu. Boris tentou ao máximo livrar se do brilho do luar, sabia que enquanto não tivesse seus olhos brilhantes reluzindo aquele brilho, seria homem. Mas ao aproximar do corpo de Kemiah, afastar o longo e fino cabelo loiro de seu rosto angelical, algo o estarreceu, sua pele reluzia, reluzia um brilho temerosamente conhecido por ele, encostou a ponta do dedo na pele branca de sua amada e sentiu o frio percorrer todo seu corpo seguido de uma raiva quase incontrolável, uma raiva instintiva.
Caiu sentado na cadeira ao lado da cama, ofegava descontrolado, quis sair dali correndo, mas, logo seguiu o pensamento de quem deveria sair dali correndo era ela. Jogou o corpo para trás e caiu de costas no chão, mirou assustado a janela e a lua que já despontava nela, levantou se desesperado, não sabia o que fazer.
Viu a abrir os olhos claros, agora melancolicamente cinzas, sentar delicada na cama, apalpar o corpo, como que estranhando o próprio corpo e sorrir ao ver Boris no canto do quarto. Ela não reparou em sua fisionomia assustada, ela não o viu perceber pontiagudos caninos aparecerem no canto dos lábios com o sorriso.
Aproximar se de seu grande amor foi o suficiente para que ela o sentisse por completo, a mesma raiva instintiva despertando dentro de sua alma, o asco surgindo em seus pensamentos, o corpo quente, os olhos verdes, o corpo selvagem. Aproximar se foi o suficiente para que acordasse. Kemiah começou a chorar, confusa, lágrimas rubras lançavam se por seus delicados e profundos olhos. Manchou todo o rosto quando o tocou ainda mais confusa.
Boris a olhava num misto de pavor e tristeza. Deixou escapar um gemido uivado de seu peito, abaixou a cabeça e saiu do quarto inconformado. A ouviu pronunciar alguns palavrões, e ao deixar se novamente jogar na poltrona abriu os olhos, que irresistivelmente procuraram a janela mais próxima e a bela lua cheia que via se por ela.
Seu corpo tremelicou, sentiu o peito arfar de dor, sua pele descolava se do corpo, dando lugar a grandes e grossos pelos marrons e pretos. Todos os ossos começaram a partir se e estalarem modificando sua forma humana em algo parecido com um lobo, mas esse bem diferente, enorme, uivava de dor, de lástima, de resignação.
Kemiah chorava desesperada no quarto, rogando pragas e maldições aos que a transformaram naquilo. Sabia, ela também, o que estava prestes a acontecer, sabia que não tinham escolhas, não poderiam resistir aos instintos, afinal era apenas por isso que durava a tanto tempo aquela rinha. Sentiu os caninos, finalmente, sentia uma sede de sangue preencher seus pensamentos, sentia seus músculos gritarem. A cada uivo de Boris na sala, era um grito seu no quarto.
Despediriam se da forma mais cruel que poderiam, ela pois a partir daquela noite jamais veria novamente a luz do dia e nem poderia aproximar se com todo seu desejo e tesão de Boris, ele pois a partir daquela noite a repulsaria com toda sua força, sentia nojo de seu cheiro de morte e sangue, e jamais a encontraria dormir entre seus braços e beija la como faziam a mais de dez anos.
Atracaram se no encontro da sala com o quarto, seus corpos fortes e vigorosos destinados a destruição. O grande lobo alcançou o rosto da nova vampira abrindo um talho de carne de seus olhos a sua boca. Ela por sua vez conseguiu, em uma mordida, arrancar lhe um punhado de carne do pescoço. Choravam ambos na luta interminável.
Boris sentiu em suas unhas carne da barriga de Kemiah, ela por sua vez possuía entre seus dentes novos e dilacerantes mais um pedaço considerável de carne de lobisomem. Caíram no chão, cansados, Boris só teve tempo de gemer um uivo dolorido e distante, jogou se pela janela, estilhaçando os vidros, galgou rápido o topo do prédio ao lado e longe conseguiu vê la escorada na janela.
Uivou longamente, enquanto a luz da lua curava lhe os ferimentos. Ela devorou o primeiro humano, um moreno, alto, de olhos verdes, parecido com Boris. Ela ouvia uma vez por mês em todas as luas cheias, o uivo de um lobo a distância, odiava o, mas sempre chorava. Ambos sabiam que jamais estariam nos braços um do outro, a não ser para a morte e a disputa.”
Por hoje é só!


Planos em ação

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De muitas idéias que tenho tido, poucas delas eu tenho aproveitado realmente, em todo o caso duas me atrairam facilmente, na verdade dois testes que impus a mim, dar continuidade à uma história que tenho formado desde 2002, mas que fazem uns três anos que nem coloco os olhos nela, e uma história que comecei a imaginar e tenho desenvolvido à algumas madrugadas.

Hoje eu vou colocar aqui o que poderia ser considerado o prólogo da primeira história, da qual não irei comentar sobre enredo nem nada por ainda não ter formado completamente a idéia. O título originalmente pensado para ela seria O Último Vampiro:


Sexta feira, dia 13 de um dezembro gélido. Já passavam das dezoito horas, o dia iniciava o seu ritual tântrico de passagem para as trevas, tornando qualquer rua perigosa na cidade. O frio era grande, congelava sem piedade as águas e o sangue que escoavam pelos esgotos, permitindo sempre um suspiro de névoa na boca das pessoas.
A noite já estampava inteiramente no céu uma cálida massa de nuvens negras, a cidade já toda vazia, pontualmente o toque de recolher enxotara para suas casas pessoas amedrontadas e precavidas. Apenas uma mulher andava pelas calçadas frias de Bloody.
A cidade atraía seguidores fanáticos do demônio, turistas insanos, caçadores, milhares de vítimas e principalmente, vampiros. Era uma antiga cidade que servia de refúgio para essas criaturas, aquela cidade fora durante séculos, desde muito antes da Guerra, atormentada e assombrada pelos temidos vampiros, sempre conhecida como a cidade sangrenta, Bloddy City, a capital mundial do medo.
No céu espessas nuvens encobriam as estrelas e a névoa que descia dos céus escondiam as sombras rastejantes, apenas a delicada mulher passeava de rua em rua, de beco em beco, sem destino ou então caminho marcado, perambulava com passos suaves e olhar perdido até estagnar em frente a um beco mais escuro, adentrou o breu, sentou se em um caixote de madeira apodrecida e esperou.
Passava da meia noite, e os gritos, pouco a pouco, um a um foram formando uma trilha sonora macabra de uma já perdida sexta feira. Ouvia se gargalhadas cruéis e gemidos de dor, talvez um ou outro morador pode decifrar as vozes desconhecidas como um vizinho ou então um filho.
Sem se perturbar ou assustar a mulher não se movia, não piscava, mantinha o mesmo olhar vago para o nada. Com sua pele branca e cabelos loiros que caiam por seus ombros bem cobertos. Percebeu se então um arrepiante silêncio ocupar cada canto daquela maldita cidade. Sem medo a bela mulher apenas observou um ritual esquecido, a lua em um ritmo temível fez se presente, em sua forma cheia mais notável, em meio à nevoa e as nuvens negras, iluminando parcamente aquele beco.
– Boa noite. – ecoou uma voz grave por todo o beco.
– Boa noite. – respondeu a mulher, ainda imóvel.
– O que faz uma linda mulher sozinha, em um beco tão sujo? – questionou a voz vinda de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.
– Não é da sua conta. – falou suave a misteriosa mulher, que erguendo se e saindo do beco, olhou triste para a lua que voltava a esconder se. – Não é você quem eu procuro.
E seguiu o seu caminho. Impávida e viva, sem ser seguida, ouvindo novamente milhares de gritos agudos e pedidos de socorro ocuparem a noite fria.

Bom hoje (e alguns dias) é só.

Opinem, façam uma autora feliz!!

Luz da Lua

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Bom dia pessoal, hoje vim mostrar um conto inédito, desse jeito não vou mais me inscrever em antologias que exijam ineditismo não!?

Luz da Lua

Distraída, seus olhos extasiavam se na dança sedutora das luzes das estrelas e com o charme indescrítivel daquela Lua Cheia, flutuava acima de seu corpo adormecido. Sentia todas as vibrações da Terra, a brisa suave do tempo cadenciando suas ordens de quando em quando e o calor que emanava dos corpos celestes transcedentais, em uma harmonia antiga, eterna.
Bailava sem sair do lugar, ligada por um fio brilhante e tenue à massa corpórea esguia deitada na rede da varanda espaçosa. Sorria, e sem porque emanava felicidade. Sentia o próximo, sentia sua presença enternecedora à distância, sabia o ligado a si, suas almas, suas mentes, inexplicavelmente enlaçadas.
Da luz da Lua Cheia a face tão conhecida sorriu lhe, sedutor e poderoso, dono de si. Cada fibra de seu corpo sentia a intensa vibração oriunda daquela direção, aqueles pontículos de luz do luar penetravam sua pele etérea, faziam na sentir se completa finalmente.
Jamais se tocavam, jamais sentiam suas peles finas e transparentes colarem se como imãs inseparavéis. Mas preenchiam se mutuamente com o calor do coração, com o vigor de suas juventudes perpétuas, com os fluídos alucinógenos que despreendiam de suas bocas distantes.
E de seus lábios ávidos escaparam feitiçarias ancestrais, e então puderam sentirem se, tatearem se no vazio infinito do nada. Não mais etéreos, uniram se sôfregos como só dois amantes distantes sabem. Ela lhe proferia palavras rimadas aos ouvidos, enquanto ele lhe cravava os dentes nos seios ofegantes.
Escorria seu sangue sagrado pelos flancos, sugados pelos lábios delicados do imortal amante. Trocavam seus fluídos ardentemente, disfarçados de saudades mortíferas, brincavam de loucuras indecentes, disfarçadas de fantasias infantis. Estrelas cadentes lhe forneciam maravilhoso espetáculo, ora iluminando, ora obscurecendo cena de erotismo animal.
Satisfeitos enfim, enroscados. Ele roçava os caninos pelas bochechas dela, numa brincadeira intíma. Ela tentava enrolar os pêlos de seu peito nas pontas dos dedos, distraída e contente. Ele admirava a beleza jamais perdida em encarnações diferentes, ela extasiava se com a imutavél expressão de prazer de seu amado. Ele mordiscava lhe as carnes de seus braços, fazendo a rir, ela lhe acariciava a barba sempre rala e observava aquele rosto eternamente jovem.
Valsavam no ar, rodopiavam entre insetos imperceptiveis, sorriam satisfeitos do enfim reencontro. Era um sonho bom, reviviam a paixão que não teve princípio e nem há de ter um fim. Conheciam sua unicidade, a antiguidade de suas existências e eternidade de sua união. Ele sorriu lhe mais uma vez, grato. Ela dançou somente à ele pela última vez.
Despertava lhe o corpo de um arrepio quente, encolhia se nas tranças que pendiam da rede feita à mão, acordou sorrindo. Seu corpo tomado de energia indizível, um tesão indescritível e um desejo incompreensível.
Miou lhe a gata preta manhosa da soleira da porta, chamando a para dormir na cama aconchegante, roçou lhe nos pés outro gato, um branco, que saiu saltitante pelo gradil do portão. Admirou a luz da Lua Cheia e percebeu um último brilhar de estrela cadente.

Tenho de admitir que minha inspiração tem nomes: Adriano, é só trocar duas ou três palavras com você e logo me vem a vontade de digitar compulsiva contos desse tipo. E Henrique, a inspiração de todo conteúdo romântico-apaixonado das minhas poesias e contos ultimamente.

Bom não apenas isso, mas Apocalyptica também é inspiração, digamos a trilha sonora, nesse conto contei com duas músicas especificamente: Ruska e Romance , quem quiser ler o conto com a trilha sonora dele, ouçam essas músicas.

Por hoje é só! Espero que gostem.

Conto: A Queda

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Boa tarde, post tardio hoje, mas por um bom motivo, satisfazendo um pedido (parcialmente) da Regina que me pediu uma poesia de vampiro eu vou postar um conto.

A Queda

“O rei havia sido capturado, sofrera um golpe de Estado e decaíra. Fora deposto de seu trono. Olavo se auto proclamara Rei. Era o novo Senhor Supremo e Absoluto. O novo Rei estava liquidando com todo os aliados do Rei e seus casuais afilhados humanos. Queria que todos os anteriores à ele fossem humilhados.
Alícia era uma jovem afilhada, Arthur era seu tutor. Ela o vira ser emboscado, dilacerado e decapitado sem poder fazer nada. Fugira o tanto que pode, porém, também fora capturada.”

Olavo estendeu meu pulso em direção ao velho Rei.
– Morda – a, vamos! – ordenou, zombeteiro.
Eu consegui ver o velho Rei, Akil, lutar contra seus caninos, engolia em seco a saliva e balança a cabeça em negativa. Olhei para Olavo, com a sobrancelha arqueada, visivelmente ‘chateado’, se isso fosse possível.
– Velho, não contradiga. Morda – a e agora! – falou novamente, agora com tom mais colérico.
Meu coração pulsou forte no peito, por um instante poderia jurar que iria saltar para fora e sair correndo, eu deveria fazer isso. Porque me colocar no lugar de outra pessoa?! Eu deveria ter ficado quieta. Talvez Olavo tivesse escolhido o rapaz ao meu lado.

“Com o pulso estendido na minha frente eu conseguia sentir aquela pequena garota pulsar de medo, o pânico tomava conta de suas entranhas. Ela se arrependera finalmente, porém tarde demais. Para um de nós dois aquela decisão tardia era  o fim. Que fosse para mim então. Não a morderia.
Olavo grunhira uma dúzia de vezes. Irritado com a minha recusa, agora gritava ferozmente, mandava me morder Alícia. Um estalo rompera os gritos de Olavo, não fosse minha falta de sangue eu estaria ruborizado. Como num segundo de impaciência Alícia enfiara a mão no meu rosto, uma bofetada ardida, quase furiosa.
– Ande logo, velho decrépito. – Alícia vociferara as palavras. – Faça o que lhe foi ordenado.
Olavo parecera bem mais surpreso do que eu e nem ninguém presente compreendera também. Ela me mandara que a mordesse. Agredira-me para eu a mordesse. Minha ira surgiu num rompante. Maldita garota humana. Abri a boca e mostrei os caninos em sua direção.
– Exatamente velho maldito. Faça o que seu novo Rei lhe ordena. – seu ódio despertara o meu.
Olavo ria se irônico. Ótimo rumo tomava seus barcos. Uma humana estava humilhando ainda mais o antigo Rei. Humana infernal.
Aquela cena seguira se por mais alguns minutos, eu me mantinha agarrado aos meus brios , não morderia e transformaria uma humana.
– Não vou contra minhas regras. Desista Olavo.
Alícia estava tomada por um excitamento que eu duvidava possuir à ela. Novamente me esbofeteara, pronunciara mais meia dúzia de palavras e jogou se ao chão, ajoelhada, rente ao meu peito. Estávamos os dois ajoelhados. Eu via seu suor escorrer pelo pescoço dando lhe um ar de guerra, seu rosto estava deveras vermelho. Engoli novamente em seco.
‘Maldita, saia de perto de mim’, falava direto em seus neurônios. Ela riu. E ainda ajoelhada puxou para trás seus cabelos, deixando a mostra o pescoço e o decote da blusa preta regata.
Olavo e todos os outros silenciaram. Sabiam que por maior que fosse a boa vontade, eu jamais repudiaria uma jovem tão bonita, tão viva, tão cheia de sangue. Eu afastava minha cabeça o quanto podia. Porém cada movimento meu para trás era o dela para frente.
– Não adianta. – minha voz saiu muito fraca e falhada.
Ela recostou seu tórax no meu, senti a implorar novamente, porém dessa vez, pedindo para que eu fizesse.
– Vamos velho. Estou aqui.
Cerrei os olhos, sua voz inundou meus pensamentos. ‘Se não for você Rei, quem será? Dê- me sua experiência, o conhecimento necessário para mata – lo.’ Seu ódio me invadiu, sua voz nervosa me ensurdeceu.
– Desista menina, nem assim.
Ela encostou se ainda mais no meu corpo, tornou sua cabeça em direção aos meus olhos e me fitou. Aqueles olhos me congelaram, não era uma pobre garota boba, não. Aqueles olhos.
Um perfume de violeta invadiu minhas lembranças. Aqueles olhos, fortes e seguros de si. Aqueles olhos me comiam, com certeza me petrificaram por inteiro. Não consegui mais pender a cabeça para trás.
Ela sorriu docemente, seus olhos. Aqueles olhos. Fui seduzido, abduzido para dentro de sua alma. Não existia nenhuma alma ali, além da minha e d’ela. Em seu olhar firme eu conseguia sentir uma sensação agradavelmente antiga, familiar e única.
Aqueles olhos imploravam para serem devorados. Imploravam para serem transformados, de volta. Eu conhecia aquele olhar, aquele jeito único e imperioso de olhar. A sala girou. Seus olhos me prenderam e seu coração pulsava dentro de minha alma.
Agora entendera o que Arthur quisera dizer com peculiar e misteriosa, ela não era apenas uma humana. Sua alma não era somente uma humana. Aquele perfume de violeta, aquele olhar devorador, guloso e profano.
– Lena. – sussurrei em nossas mentes.
De sorriso aberto, ela delicadamente falou dentro de mim. ‘Me morda, me traga de volta.’. E agora ciente de não se tratar de uma reles mortal descartável eu consenti.
Curvei sob seu corpo, seu pescoço suado, suas veias pulsantes. Percebi a fechar os olhos e conseguia ouvir o som de sua agradável risada em minha mente. ‘Akil, eu permito violar meu corpo. Meu novo corpo. Eu permito me trazer de volta.’
E como ocorrera há mais de mil e quinhentos anos, eu pendi minha cabeça em seu busto, empurrei delicadamente seu corpo para trás para me acomodar melhor, lambi da ponta de seu decote até o pescoço. Aspirei seu perfume fortemente.
Como se aquele olhar dela tivesse sugerido efeito maior, todos estavam paralisados, até os que seguravam firmemente as correntes que me prendiam, paralisaram. Baixei meus braços com a soltura das pontas das correntes e abracei seu corpo.
Por segundo ali, apenas nos aspirando, lembrei da vez que fizera isso pela primeira vez, num campo desértico perto de Tis, no antiguíssimo Egito. Ela estava linda, desnuda em cântico. Agora em meus braços ouvia a entoar os velhos versos. Seu corpo mais preenchido em meu peito. Abri a boca suavemente e finquei meus dentes em sua jugular. Ela gemeu, um bocado de dor escapou lhe pela voz. Enchi minha boca com seu sangue, vermelho vivo. Ela fincou as unhas em minhas costas, meneou a cabeça para trás, suguei lhe mais punhado de sangue e segurei lhe a nuca mole. Mordi meus próprios lábios misturando nossos sangues e a beijei.
Ela ferozmente prendeu se em meus lábios e mordeu os, sugando nossa mistura, revigorada num piscar de olhos ela segurou meus cabelos. E num beijo sôfrego nos consumimos.
Tudo enegreceu, a sala apagou se como mágica. E ali de joelhos abraçado à Alícia eu me traía. Devorava seus lábios como ela os meus. Aquilo que prometi jamais fazer novamente, eu mordia e transformava uma humana. Quebrei minha mais importante regra. Porém agora deitados, com seu corpo abaixo do meu eu sentia irromper la, profanar aquele corpo humano. Sua pele ardida e quente esfriava com o contato da minha. Beijei lhe a mordida novamente. Ela procurava meus lábios.
Senti permanecer por dias devorando lhe a alma, o sangue e o corpo. Senti que nada mais existia, assim como daquela primeira vez, onde mesmo no calor do deserto nos mantivemos por semanas apenas presos um no outro. Sem sol, sem outras pessoas, sem outros ruídos. Apenas nossas almas corrompidas, nossos corpos unidos e nossos sangues misturados.
E depois de mais de 400 anos transformei novamente uma humana em vampira. Após essa imensidão de dias e semanas apenas nos devorando, nos amando, sentimos nos fracos. Eu e ela não possuiamos mais sangue para nos sustentar ali naquele ato.
Senti meu corpo todo doer. Uma dor aguda e dilacerante. Cerrei forte os olhos e consegui ver tudo novamente. Olavo e todos os seus servos, os outros dois prisioneiros não estavam mais ali.
Olavo sentado em minha cadeira e os outros aguardando que eu retomasse a consciência, quando pisquei novamente os olhos, os quatro brutamontes estavam novamente prendendo minhas correntes à parede.
O corpo de Alícia jazia no meio da sala, nu, pálido, sem vida. Aquela garota serviu à mim e eu à ela por semanas. Olavo fez um sinal e duas mulheres entraram, cada uma trazia um jarro cheio de sangue, uma veio em minha direção e a outra em direção a Alícia.”

Bom, esse conto é gigante, a verdade é que a história toda poderia dar um livro, e essa era minha intenção, mas são planos que vão sendo colocados de lado, espero que gostem e principalmente leiam até o fim … hehehe

Por hoje é só!